Todoprosa | Sérgio Rodrigues
       
 
A palavra é...

Travesti: Ronaldo deu cores ainda mais brasileiras a uma palavra que, mesmo sendo francesa, é vista como coisa nossa.

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Primeira mão

Leia um trecho da novela "Órfãos do Eldorado", de Milton Hatoum.

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Sobre o autor

Jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem: saiba um pouco mais sobre o autor desta página


Do autor









 

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Milton Hatoum: ‘Órfãos do Eldorado’

Friday, March 14th, 2008

eldorado.jpgUm novo livro do amazonense Milton Hatoum é sempre uma notícia a ser festejada. Foram poucos desde que ele estreou em 1990 com “Relato de um certo Oriente”: até este “Órfãos do Eldorado” (Companhia das Letras, 112 páginas, R$ 29) eram apenas três romances, todos de alguma forma substanciais, carnudos no vocabulário e na simbologia, com algo de amazônico e transbordante em sua fé na arte de narrar – “como os romances de antigamente”, ouvi certa vez de um leitor, e era elogio. Aliada ao talento de Hatoum, a falta de pressa se traduziu num padrão de qualidade elevado que o transformou em bicho-papão de prêmios literários. Com justiça.

No novo livro, lançado apenas três anos depois de “Cinzas do Norte”, os temas habituais de Hatoum – o território conflagrado das relações familiares, a paisagem amazônica como pano de fundo e metáfora de um profundo desencanto, o acerto de contas com um passado perigoso que a memória busca mas teme empreender – são retomados em chave diferente. Novela curta, escrita por encomenda para uma série internacional sobre temas mitológicos, “Órfãos do Eldorado” se deixa ler velozmente e com prazer. Só no fim é que me vi às voltas com uma suspeita incômoda: a de que, embora sejam bem-vindos os momentos em que a busca de concisão levou Hatoum a comprimir sua prosa até aproximá-la da (boa) poesia, todo esse enxugamento pode atrapalhar mais do que ajudar seu projeto ficcional.

O problema não é técnico e sim, digamos, de temperamento. Mesmo que a oralidade do narrador, um contador de histórias, funcione mais em tese que na prática, o descarnamento necessário a uma novela é conduzido com habilidade pelo autor. Historinha de fundo mítico, entre o sonho e a vigília, sobre um amor infeliz que engole a vida inteira do protagonista, a narrativa acelerada e cheia de elipses de “Órfãos do Eldorado” tem um travo de irrealidade e vertigem que lhe cai bem. Ao mesmo tempo deixa a sensação de que Hatoum, depois do passeio por esse afluente estreito, vai se sentir mais feliz e confortável quando conduzir seu barco de volta ao leito mais caudaloso e lento do romance-romance, com suas camadas de subtramas e caracterizações detalhadas, no qual navega como poucos.

Leia abaixo um trecho do meio do livro, o único momento em que o narrador, Arminto Cordovil, chega perto de satisfazer seu desejo pela misteriosa Dinaura.

Acordei de boca aberta, respirando como um asmático. Apalpei a camisa molhada e vi o rosto de Florita.

Ouvi uns gritos de afogado e vim te socorrer.

Quando ela falava assim, parecia adivinhar meus sonhos. Fiquei assustado com as palavras de Florita. Medo de alguém que nos conhece. Para disfarçar, pedi a ela que perfumasse a banheira com essência de canela. Quando me viu na pinta e perfumado, disse que eu não devia sair de casa.

Por quê?

Não respondeu. E eu confiei na minha intuição. Antes das cinco, fui até a Ribanceira e fiquei encostado no tronco da cuiarana, o lugar onde vi Amando morrer. No chão, flores arrancadas pela ventania. Um céu que nem o desta tarde: nuvens grandes e grossas. A rua do Matadouro, deserta. Estava tão ansioso que tremi ao ouvir as cinco batidas do sino. Então ela apareceu sozinha, usando um vestido branco, os braços nus. Sentamos sob a árvore, o tronco cheio de flores. Acariciei os braços e os ombros de Dinaura, e admirei o rosto dela. O desejo no olhar cresceu. Não fiz pergunta, nem disse nada. Qualquer palavra era inútil para o amor urgente. Ventava com força. Ela não se assustou com as trovoadas, nem se esquivou do meu abraço. Eu guardava as palavras no meu pensamento. Um dia viajaríamos juntos, conheceríamos outras cidades. Ela olhava a outra margem do Amazonas, como num sonho. Íamos casar e depois viver em Manaus ou em Belém, quem sabe no Rio. A chuva se aproximou com uma zoada de cachoeira. parecia que estávamos sozinhos na cidade e no mundo. Ela deitou na terra molhada, o pano do vestido colado na pele morena; se despiu sem pressa, a anágua, o corpete e o sutiã, ficou de pé, nua, e tirou minha roupa e me lambeu e chupou com gana; depois rolamos na terra até a mureta da Ribanceira, e voltamos para perto da árvore, amando como dois famintos. Não sei quanto tempo ficamos ali, acasalados, sentindo a quentura nas entranhas da carne. mal pude ver a beleza do corpo, abismado com o jeito dela, de amar. Dançarina. O ciúme me queimou. Quis esquecer isso e olhei o céu, a árvore, a torre da igreja. As flores caíam molhadas e cobriam meus olhos. Acordei com os estalos da chuva no rosto, e cometi a imprudência de beijar Dinaura com um desejo quase violento. Queria tocar a pele, beijar o corpo dela. Queria mais. os olhos diziam não. Encostei o ouvido nos lábios de Dinaura, mas a chuva me ensurdecia. E o que pude nos nos lábios: uma história. Qual? Ela se vestiu e fez um gesto: que a esperasse, voltava logo. Saiu correndo, como se fugisse de uma ameaça. Fui atrás dela e parei no meio da praça. Voltei, me vesti, esperei por ela no mesmo lugar. Ainda chovia quando alguém apareceu na entrada do colégio. Chamei por Dinaura, me aproximei e vi um homem caído. De joelhos. O mendigo recadeiro segurava um guarda-chuva preto. Estropiado. Iro soltou uns gemidos, ele esperava restos de comida do refeitório do colégio. Tirei do bolso uma nota molhada e joguei na barriga do homem.

Começos inesquecíveis: Tomás Eloy Martínez

Monday, February 18th, 2008

eloymartinez.jpgPouco depois da morte de Mãe, a Brepe deu para pular dentro do sono de Carmona. Fitava o homem enquanto ele se despia e, quando ele apagava a luz, arqueava as costas e ia se erguendo nas patas, pronta para caçar o sonho de Carmona e depená-lo assim que levantasse vôo. Mas os sonhos de Carmona não eram pássaros, e sim gatos: ásperas trevas de gatos, línguas de gato movendo-se entre tições de negra luz.

O homem dormia de boca aberta e, quando ele adentrava o cone de escuridão onde pairavam os sonhos, uma manada de gatos saía de sua boca rasgada por berros de cio e mergulhava no rio dos engenhos de açúcar.

É a primeira vez que promovo aqui o cruzamento das duas seções citadas no título acima, mas tenho um bom motivo. Normalmente, a eleição de um Começo inesquecível exige um tempo de maturação de leitura que é, por definição, incompatível com o espírito apressadinho abrigado sob a rubrica Primeira mão. Certo, mas as frases iniciais da recém-lançada edição brasileira de “A mão do amo” (Companhia das Letras, tradução de Sérgio Molina e Lucas Itacarambi, 168 páginas, R$ 36), romance publicado em 1991 pelo argentino Tomás Eloy Martínez, me agarraram pelo pescoço de tal forma que fico tentado a chamá-las aqui, meio pomposamente, de melhor tradução literária da sintaxe onírica que já li. Sempre gostei de ler – e de escrever – sobre sonhos, esses vizinhos ariscos da ficção, que parecem nunca estar em casa quando tocamos a campainha. Por alguma razão, a beleza feroz de “línguas de gato movendo-se entre tições de negra luz” me parece insuperável.

Cristovão Tezza: ‘O filho eterno’

Wednesday, August 8th, 2007

o-filho-eterno.JPGAcaba de sair o melhor romance brasileiro do ano – sim, em minha módica opinião e até o momento, será preciso fazer a ressalva? O fato é que 2007 vem me dando poucos argumentos para discordar dos leitores que, aqui mesmo na caixa de comentários do Todoprosa, insistem em situar nossa literatura contemporânea numa faixa de (in)competência entre a da Anac e a do beisebol praticado em campos nacionais. E como o blog, com raras exceções, prefere manter silêncio sobre livros que não possa elogiar, a literatura brasileira pouco tem dado as caras neste Primeira mão, o que é uma pena. Mas ficou mais fácil combater a versão literária do que Nelson Rodrigues chamava de nosso “complexo de vira-lata” depois de ler o romance “O filho eterno”, de Cristovão Tezza (Record, 240 páginas, R$ 36).

Escritor curitibano nascido em Santa Catarina, Tezza, de 54 anos, é quase um autor consagrado – embora os limites dessa quase-consagração sejam tão constritos que ele continue sendo novidade para muita gente num ambiente cada vez mais marcado pela baixa condutividade de mérito. Livros como “Trapo”, “Breve espaço entre cor e sombra” e “O fotógrafo” garantiram a esse professor da Universidade Federal do Paraná, além de prêmios, o reconhecimento da crítica e alguma circulação entre os apreciadores de ficção de qualidade. Acredito que Cristovão Tezza tenha agora a chance de ir além desse circuito fechado devido a uma combinação de dois fatores.

O primeiro é o relançamento de sua obra pela Record – que, juntamente com o romance inédito, está repondo nas livrarias “Trapo”, “O fantasma da infância” e “Aventuras provisórias”, em volumes com o mesmo projeto gráfico. O segundo e mais importante fator é que “O filho eterno” trata, com coragem e brilhantismo, mas também com aparente simplicidade, de um tema de forte apelo emocional.

Como o protagonista de seu romance, o autor tem um filho com síndrome de Down. O livro não disfarça o caráter de acerto de contas do escritor com seu filho – ou, melhor dizendo, consigo mesmo no papel de pai desse filho. Ainda assim, Tezza rejeita o rótulo de memorialismo para ficar com o de romance: a narração é toda em terceira pessoa, por exemplo.

“Quando comecei a me tratar por ‘ele’, o livro ganhou a dimensão de ficção, que é o que importa, e autonomia. Para o leitor que não me conhece, os aspectos factuais são irrelevantes” , declarou em entrevista à “Gazeta do Povo” de domingo passado. “Além disso, ao criar o narrador do livro e fazer do pai um personagem, conquistei uma independência brutal, uma capacidade ou uma coragem de dizer as coisas que eu jamais teria se falasse de mim mesmo.”

Faz sentido. O que poderia sugerir distanciamento acaba por se mostrar, pelo contrário, um achado técnico que permite ao autor mergulhar na vertigem emocional de uma história repleta de armadilhas e voltar de lá com um texto que não se esquiva de nenhum tema e jamais soa uma nota falsa, edulcorada ou apelativa. Difícil saber se a façanha maior, aqui, se situa no plano da literatura ou da vida. Talvez não haja distinção.

Leia abaixo o quarto capítulo de “O filho eterno”:

A manhã mais brutal da vida dele começou com o sono que se interrompe — chegavam os parentes. Ele está feliz, é visível, uma alegria meio dopada pela madrugada insone, mais as doses de uísque, a intensidade do acontecimento, a sucessão de pequenas estranhezas naquele espaço oficial que não é o seu, mais uma vez ele não está em casa, e há agora um alheamento em tudo, como se fosse ele mesmo, e não a mulher, que tivesse o filho de suas entranhas — a sensação boa, mas irremediável ao mesmo tempo, vai se transformando numa aflição invisível que parece respirar com ele. Talvez ele, como algumas mulheres no choque do parto, não queira o filho que tem, mas a idéia é apenas uma sombra. Afinal, ele é só um homem desempregado e agora tem um filho. Ponto final. Não é mais apenas uma idéia, e nem mais o mero desejo de agradar que o seu poema representa, o ridículo filho da primavera — é uma ausência de tudo. Mas os parentes estão alegres, todos falam ao mesmo tempo. A tensão de quem acorda sonado se esvazia, minuto a minuto. Como ele é? Não sei, parece um joelho — ele repete o que todos dizem sobre recém-nascidos para fazer graça, e funciona. O bebê é parrudo, grande, forte, ele inventa: é o que querem ouvir. Sim, está tudo bem. É preciso que todos vejam, mas parece que há horários. Daqui a pouco ele vem — aquele pacotinho suspirante. A mulher está plácida, naquela cama de hospital — sim, sim, tudo vai bem. Há também um rol de recomendações que se atropelam — todos têm alguma coisa fundamental a dizer sobre um filho que nasce, ainda mais para pais idiotas como ele. Eu fiz um curso de pai, ele alardeia, palhaço, fazendo piada. Mas era verdade: passou uma tarde numa grande roda de mulheres buchudas, a dele incluída, é claro, com mais dois ou três futuros pais devotos, atentíssimos, ouvindo uma preleção básica de um médico paternal, e de tudo guardou um único conselho — é bom manter uma boa relação com as sogras, porque os pais precisam eventualmente descansar da criança, sair para jantar uma noite, tentar sorver um pouco o velho ar de antigamente que não voltará jamais.

E as famílias falam e sugerem — chás, ervas, remedinhos, infusões, cuidados com o leite —, é preciso dar uma palmada para que ele chore alto, assim que nasce, diz alguém, e alguém diz que não, que o mundo mudou, que bater em bebê é uma estupidez (mas não usa essa palavra) — eles não vão trazer a criança? E que horas foi? E o que o médico disse? E você, o que fez? E o que aconteceu? E por que não avisaram antes? E por que não chamaram ninguém? E vamos que acontece alguma coisa? Ele já tem nome? Sim: Felipe. Os parentes estão animados, mas ele sente um cansaço subterrâneo, sente renascer uma ponta da mesma ansiedade de sempre, insolúvel. Ir para casa de uma vez e reconstruir uma boa rotina, que logo ele terá livros para escrever — gostaria de mergulhar no Ensaio da Paixão de novo, alguma coisa para sair daqui, sair deste pequeno mundo provisório. Sim, e beber uma cerveja, é claro! A idéia é boa — e ele quase que gira o olhar atrás de uma companhia para, de fato, conversar sobre esse dia, organizar esse dia, pensar nele, literariamente, como um renascimento — veja, a minha vida agora tem outro significado, ele dirá, pesando as palavras; tenho de me disciplinar para que eu reconquiste uma nova rotina e possa sobreviver tranqüilo com o meu sonho. O filho é como — e ele sorri, sozinho, idiota, no meio dos parentes — como um atestado de autenticidade, ele arriscará; e ainda uma vez fantasia o sonho rousseauniano de comunhão com a natureza, que nunca foi dele mas que ele absorveu como um mantra, e de que tem medo de se livrar — sem um último elo, o que fica? Em toda parte, são os outros que têm autoridade, não ele. O único território livre é o da literatura, ele talvez sonhasse, se conseguisse pensar a respeito. Sim, é preciso telefonar para o seu velho guru, de certa forma receber sua bênção. Muitos anos depois uma aluna lhe dirá, por escrito, porque ele não é de intimidades: você é uma pessoa que dá a impressão de estar sempre se defendendo. Sentimentos primários que se sucedem e se atropelam — ele ainda não entende absolutamente nada, mas a vida está boa. Ainda não sabe que agora começa um outro casamento com a mulher pelo simples fato de que eles têm um filho. Ele não sabe nada ainda.

Súbito, a porta se abre e entram os dois médicos, o pediatra e o obstetra, e um deles tem um pacote na mão. Estão surpreendentemente sérios, absurdamente sérios, pesados, para um momento tão feliz — parecem militares. Há umas dez pessoas no quarto, e a mãe está acordada. É uma entrada abrupta, até violenta — passos rápidos, decididos, cada um se dirige a um lado da cama, com o espaldar alto: a mãe vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri. Eles chegam como sacerdotes. Em outros tempos, o punhal de um deles desceria num golpe medido para abrir as entranhas do ser e dali arrancar o futuro. Cinco segundos de silêncio. Todos se imobilizam — uma tensão elétrica, súbita, brutal, paralisante, perpassa as almas, enquanto um dos médicos desenrola a criança sobre a cama. São as formas de um ritual que, instantâneo, cria-se e cria seus gestos e suas regras, imediatamente respeitadas. Todos esperam. (more…)

Leonardo Sciascia: ‘A cada um o seu’

Friday, July 20th, 2007

sciascia.jpgO grande escritor siciliano Leonardo Sciascia (1921-1989) andava negligenciado pelas editoras brasileiras há alguns anos. Terá saído de moda a literatura engajada, sempre às voltas com temas políticos, de um escritor que acabaria mesmo se lançando na política partidária – inicialmente pelo PCI e depois pelo Partido Radical? É possível. Quantos leitores jovens saberão sequer que seu sobrenome é pronunciado Xaxa ? Seja como for, essa ausência temporária torna ainda mais digno de comemoração o lançamento do romance “A cada um o seu” (Alfaguara, tradução de Nilson Moulin, R$ 26,90, 136 páginas).

Na superfície, trata-se de uma história policial de leitura compulsiva, curta e seca, imperdível para os fãs do gênero. Mas basta cavar um palmo para encontrar um estudo penetrante e uma denúncia feroz da lógica mafiosa, com sua rede de silêncios, corrupção e violência – tema em que o autor não tem rival. Lançado na Itália em 1966, “A cada um o seu” traz Sciascia em grande forma e em dose concentrada.

A carta chegou com a entrega da tarde. O carteiro apoiou antes no balcão, como de costume, o maço colorido dos folhetos de propaganda; depois, com cuidado, como se houvesse perigo de vê-la explodir, a carta: envelope amarelo, e colado nele um pequeno retângulo branco com o endereço impresso.

– Não gosto desta carta – disse o carteiro.

O farmacêutico ergueu os olhos do jornal, tirou os óculos; perguntou:

– O que foi? – incomodado e curioso.

– Estou dizendo que não gosto desta carta. – No mármore do balcão, empurrou-a com o indicador, lentamente, para o farmacêutico. Sem tocar nela, o farmacêutico inclinou-se para observá-la; levantou-se, voltou a pôr os óculos, observou-a de novo.

– Por que não gosta?

– Foi postada aqui, ontem à noite ou de manhã cedo; e o endereço foi cortado de um papel timbrado da farmácia.

– É – constatou o farmacêutico, e encarou o carteiro, constrangido e inquieto, como se esperasse uma explicação ou uma decisão.

– É uma carta anônima – disse o carteiro.

– Uma carta anônima – repetiu o farmacêutico. Sequer a tinha tocado, mas a carta já lacerava sua vida doméstica, caía como um raio, reduzindo a cinzas uma mulher não bonita, meio opaca, um tanto desmazelada, que, na cozinha, preparava o cabrito que ia pôr no forno para o jantar.

– Aqui, a mania das cartas anônimas não acaba – disse o carteiro. Tinha deixado a bolsa numa cadeira e se apoiado no balcão: aguardava que o farmacêutico decidisse abrir a carta. Ele a entregara intacta, não a abriu antes (com todas as precauções, é claro), confiando na cordialidade e ingenuidade do destinatário: “Se abrir e for um caso de chifre, não vai me dizer nada; mas se for uma ameaça ou coisa diferente, aí ele me mostra.” De qualquer jeito, não ia embora sem saber. Tinha tempo.

– Uma carta anônima para mim? – indagou o farmacêutico, depois de um longo silêncio, pasmo e indignado no tom, mas aterrorizado na aparência. Pálido, olhar perdido, gotas de suor no lábio. E, mais do que a curiosidade vibrante que o paralisava, o carteiro partilhou o estupor e a indignação daquele bom homem, de coração aberto; alguém que, na farmácia, vendia fiado a todos e, no campo, nas terras que recebera como dote da mulher, deixava os camponeses à vontade. Nunca havia escutado, ele, o carteiro, nenhuma maledicência que envolvesse a senhora.

De estalo, o farmacêutico se decidiu: pegou a carta, abriu-a, desdobrou a folha. O carteiro viu aquilo que esperava: uma carta escrita com palavras recortadas de um jornal. (more…)

Ian McEwan: ‘Na praia’

Saturday, June 16th, 2007

Qualquer livro novo do inglês Ian McEwan é, hoje, um grande evento, que está para a literatura “séria” como o novo “Harry Potter” está para a literatura de entretenimento. Evidentemente, a comparação não se refere ao impacto quantitativo ou financeiro de cada um, mas ao nível de burburinho e inquietação que ambos geram em seus respectivos públicos. Não é à toa que a Companhia das Letras correu – e como – para pôr nas livrarias a versão brasileira do romance curto ou novela On Chesil Beach, “Na praia” (tradução de Bernardo Carvalho, 136 páginas, R$ 33), pouco mais de dois meses depois do lançamento britânico e num honroso empate com o americano.

Se a pressa pode ter provocado alguns problemas de acabamento, o resultado geral é correto e tem o mérito de pôr o livro em circulação entre os leitores brasileiros enquanto ele ainda está, por assim dizer, quente. Em tempos globalizados de Amazon.com, talvez isso seja, mais do que luxo, uma necessidade. (Publiquei em dezembro, aqui, um link para o primeiro capítulo do livro na “New Yorker” – o excerto aí de baixo está lá no original.)

No quadro da produção recente de McEwan, “Na praia” não tem – nem poderia ter, dado o tamanho limitado da tela – a grandiosidade de “Reparação” (Atonement), forte candidato a melhor livro de ficção dos últimos vinte anos. Mas é superior a “Sábado”, um romance em que, embora dê seu show habitual de técnica, acelerando e freando a narrativa como e quando bem entende, o autor parece ter trombado com uma limitação ideológica ao retratar com simpatia por vezes piegas a autocomplacência de uma família inglesa quase perfeita diante de um mundo violento que a sombra do 11 de Setembro tornou ainda mais instável.

“Na praia” também não podia ser mais inglês, mas de autocomplacente não tem nada. A ação se passa na noite de núpcias dos jovens e inexperientes Edward e Florence num hotel à beira-mar. Estamos no verão de 1962, pouco antes daquilo que ficaria conhecido como Revolução Sexual, e a tensão construída pelo narrador onisciente se apóia nas posturas e expectativas conflitantes dos recém-casados diante do sexo. Num ponto eles concordam: a impossibilidade de falar do assunto. Antes que a tensão exploda em um clímax desolador, McEwan faz, mais uma vez, o que quer com a arte da ficção realista, misturando pesquisa histórica e monólogo interior, atmosfera de época e acuidade psicológica, forma e fundo, com uma elegância clássica e um virtuosismo que parecem querer não apenas desmentir, mas ridicularizar os arautos do “fim do romance”.

Por essas e outras, McEwan vem plantando tão firmemente os dois pés no posto de Grande Escritor de Nosso Tempo que já começa a levar pauladas por causa disso. Inevitável: dez anos atrás, era chique gostar dele; hoje começa a virar moda na Inglaterra – e no Brasil não será diferente – espinafrá-lo sem piedade. É do jogo: se qualquer coisa que cheire a ranking literário deve ser mesmo encarada com desconfiança, o que dizer dos superlativos “unânimes”? Para o gosto de alguns, McEwan se mostra, digamos, legível demais para ser realmente bom.

Convém apenas recomendar a quem ainda não conhece sua literatura que não se deixe levar pelo fútil e fascinante jogo dos juízos absolutos antes de conferir por si mesmo. Acredito que terá boas chances de acabar concordando com este blogueiro em seu juízo também absoluto: o cara é um monstro.

Quando se beijaram, ela sentiu imediatamente a língua dele, retesada e robusta, avançar entre seus dentes, como um rufião abrindo caminho à força até um quarto. Entrando nela. A sua própria língua se dobrou e retraiu numa aversão automática, dando ainda mais espaço à de Edward. Ele sabia muito bem que ela não gostava desse tipo de beijo, e nunca fora tão impositivo. Com os lábios firmemente pregados nos dela, devassou-lhe o fundo carnudo da boca, e em seguida fez um movimento circular por trás dos dentes da arcada inferior até o vazio onde três anos antes um dente de siso crescera torto, para acabar removido sob anestesia geral. Era nessa cavidade que a língua dela normalmente se perdia, quando ela própria estava perdida em pensamentos. Por associação, tinha mais a ver com uma idéia do que com uma localização, era mais um lugar privado e imaginário do que um vão na gengiva, e a ela parecia estranho que outra língua também pudesse ter a permissão de chegar até lá. Era a ponta aguçada e dura desse músculo alienígena, vivo e palpitante, que a repugnava. A mão esquerda dele estava espalmada acima das omoplatas dela, logo abaixo do pescoço, alavancando a cabeça dela contra a dele. A claustrofobia e a falta de ar se igualavam quando ela decidiu que não suportaria ofendê-lo. Ora ele estava sob a língua dela, empurrando-a para cima, contra o céu da boca, ora sobre a língua, empurrando-a para baixo, e depois deslizando com suavidade pelos lados e em círculo, como se achasse que podia dar-lhe um nó simples. Queria enredar a língua dela em algum tipo de atividade própria, induzi-la a um abominável dueto mudo, mas ela só conseguia se encolher e se concentrar em não reagir, não ter engulhos e não entrar em pânico. Se vomitasse na boca dele – e esse era um pensamento desvairado –, o casamento estaria terminado num instante, e ela teria de voltar para casa e explicar aos pais. Entendia perfeitamente que esse negócio de línguas, essa penetração, era uma representação em escala menor, um ritual do que ainda estava por vir, como um tableau vivant, o prólogo de uma velha peça que anuncia tudo o que acontecerá em seguida.

Enquanto esperava que esse momento particular passasse, com as mãos apoiadas por convenção nos quadris de Edward, Florence se deu conta de que havia topado com um lugar-comum, bastante evidente em retrospecto, tão primitivo e antigo quando danegeld ou droit de seigneur, e cuja definição era quase tão elementar: ao decidir casar-se, foi exatamente isso que ela aceitou. Tinha concordado que era certo fazer isso, e que isso fosse feito com ela. Quando ela e Edward e seus pais seguiram em fila para a lúgubre sacristia depois da cerimônia, para assinar o registro, foi nisso que puseram seus nomes, e todo o resto – a suposta maturidade, os confeitos e o bolo – era só uma distração educada. Se não gostasse, a responsabilidade era só dela, uma vez que todas as suas escolhas ao longo do ano anterior convergiram para isso, a culpa era toda sua, e agora ela realmente achava que ia vomitar. (more…)

Tahar Ben Jelloun: ‘Partir’

Friday, June 8th, 2007

O romancista, poeta e ensaísta marroquino Tahar Ben Jelloun, nascido em 1944, foi educado em francês em sua terra natal e se mudou em 1971 para Paris, onde vive até hoje. Mais do que informação biográfica, a adoção do francês como língua literária é fundamental na obra de Ben Jelloun, pois o situa numa zona de fronteira cultural que o torna um dos escritores africanos de maior expressão da atualidade e, ao mesmo tempo, um alvo fácil para a parcela mais xiita da crítica internacional, que o acusa de traição aos valores autênticos da “Magreb de raiz” ou coisa parecida. Bobagem. Ben Jelloun não usa o deslocamento para fazer macumba-para-turista e sim para refletir, com real talento e sem proselitismo, sobre as muitas faces da guerra cultural surda que foi (re)inaugurada pelo mundo pós-colonial e globalizado entre a Casa Grande e a Senzala do planeta. O romance “Partir” (Bertrand Brasil, tradução de Mônica Cristina Corrêa, 288 páginas, preço a definir), que ele lançou ano passado, é mais um mosaico desse desenraizamento, denunciado no trecho abaixo pelo louco lúcido que faz as vezes de consciência crítica do livro – personagem retomado de outro título de Ben Jelloun, “Moha o louco, Moha o sábio”, lançado aqui pela Francisco Alves.

Moha, o velho Moha, Moha o louco, Moha o sábio, saiu de sua árvore, descabelado, a voz grave, o olho vivo, e se precipitou para Casabarata num café onde se fazem os tratos entre os passadores e os clandestinos.

No início, Casabarata era uma favela, mas, com o tempo, o lugar se transformou em feira para os pobres. Encontrava-se de tudo ali, de sapatos velhos furados a televisores.Vendia-se tudo que se pudesse imaginar. Progressivamente, os produtos chineses, as mercadorias falsificadas, foram invadindo tudo. Mas o que interessava Moha em Casabarata eram os homens que tomavam chá fumando cachimbos com kif.

Ele se apoderou de um jornal que estava sobre a mesa, pediu um isqueiro ao garçom, olhou fixamente dois homens com jeito abestalhado por terem fumado, sacudiu o jornal e depois o queimou.

Eu também estou queimando, estou queimando como este jornal que não conta a verdade, ele diz que está tudo bem, que o governo está fazendo tudo que pode para dar emprego aos jovens, diz que aqueles que atravessam o estreito são uns perdidos, desesperados, sim, há por que estar vazio de toda e qualquer esperança, mas a vida passa e nos deixa à margem, à margem de quê, vai-se saber, eu não direi, a vida, mas que vida, a que nos esmaga, nos dilacera? Peguem, juntem as cinzas das notícias que queimei, tem um monte delas, falsas notícias, como esta moça que escreve a coluna “coração no coração”, pé no pé, meu pé seu pé, para perguntar se deve deixar seu marido beijá-la nos lábios inferiores. Uma outra pergunta se a nossa religião autoriza colocar na boca o pênis do marido, mas que loucura é esta? Parece que essas cartas não existem, deve haver um cara cheio de imaginação que as escreve e envia ao jornal. Desde então, esse jornal de esquerda faz fortuna, é uma coisa de louco o quanto as pessoas têm vontade de saber como os outros se viram com seu sexo, bom, eu não vim aqui para dar lição de moral, se uma mulher quer se dar a seu marido, que o faça e não vá alardear nos jornais. Por isso vocês querem cair fora, partir, deixar o país, ir para o lado dos europeus, mas eles não estão esperando por vocês, ou melhor, eles os esperam com os cães, pastores alemães, algemas e um pontapé no traseiro, vocês acreditam que lá tem trabalho, conforto, beleza e graça, mas, meus pobres amigos, há tristeza, solidão, céu cinzento, tem também dinheiro, mas não para aqueles que vão sem serem convidados. Bom, vocês sabem do que estou falando, quantos caras partiram e se afogaram? Quantos caras partiram e foram mandados de volta? Quantos caras desapareceram no mato, não se sabe nem mesmo se ainda estão vivos, suas famílias não têm notícias, mas eu sei onde estão, estão aqui, no meu capuz, estão amontoados uns sobre os outros, emboscados como bandidos, à espera da luz para sair, isso não é vida. Ei você! O gordo com o gorro que esconde a testa e as sobrancelhas, você se acha esperto, embolsa dinheiro e os envia à morte, um dia você será devorado por todos esses afogados, eles virão encontrá-lo em sua cama e vão comer-lhe o fígado, o coração e os colhões, você vai ver, pergunte aonde foi parar o Sif, é, o que mandava que o chamassem de sabre porque manejava o sabre como um revólver, foi degolado por mortos, é, centenas de cadáveres se apresentaram e lhe pediram que prestasse contas, ele puxou o sabre, que derreteu sob os olhares vidrados dos mortos, e ele ficou colado na parece onde mãos tão cortantes quanto uma faca de açougueiro o despedaçaram. (more…)

Javier Cercas: ‘A velocidade da luz’

Saturday, June 2nd, 2007

Chega às livrarias nos próximos dias o romance “A velocidade da luz”, de Javier Cercas (Relume Dumará, tradução de Antonio Fernando Borges, 208 páginas, R$ 34,90), mais uma oportunidade que o leitor brasileiro tem de ser apresentado ao escritor mais interessante e festejado da “nova geração” (nasceu em 1962 e publica desde os anos 80) da literatura espanhola. Cercas é autor de uma proeza rara, um arrasa-quarteirão reverenciado pela crítica, o romance “Soldados de Salamina”, de 2001, em que lança um olhar original sobre a Guerra Civil Espanhola embaralhando realidade e ficção – a ponto de criar um narrador chamado Javier Cercas e um personagem secundário, também escritor, que atende pelo nome de Bolaño, como o chileno que era seu amigo e primo literário. (Para quem quiser se aprofundar na história, aqui vai uma breve resenha do Roberto Bolaño verdadeiro sobre o livro.) Lançado no Brasil em 2004 pela Editora Francis, “Soldados de Salamina” não teve por aqui nem uma migalha da repercussão internacional que mereceu, daí se poder dizer que “A velocidade da luz”, o romance com que Cercas respondeu à expectativa criada por seu maior sucesso, é uma nova chance. Nova chance para o público brasileiro, bem entendido, e não para ele, que passa bem sem isso.

Embora nos dois casos a ficção se empenhe em sabotar noções estabelecidas de bem e mal, sucesso e fracasso, pelo menos num aspecto “A velocidade da luz” trabalha no avesso de “Soldados de Salamina”. Este gira em torno de um enigmático ato de misericórdia praticado em meio à guerra pelo soldado republicano que, fingindo não vê-lo escondido, salva a vida de Rafael Sánchez Mazas, personagem real que foi um dos pilares do fascismo espanhol. No novo livro, também de arquitetura engenhosa e esticada no tempo, o narrador, um professor universitário espanhol que sonha virar escritor, torna-se amigo de Rodney Falk, veterano do Vietnã cuja passagem pela guerra não foi marcada exatamente por atos de misericórdia, para dizer o mínimo. Mais tarde, quando seu sonho de glória literária se tornar realidade em forma de pesadelo, o narrador sem nome vai voltar à terrível história de Falk em busca de redenção.

No trecho abaixo, a amizade dos dois ainda está no início, e o alerta do americano sobre os riscos do sucesso soa premonitório:

– Achou tão ruim assim o que eu lhe entreguei?

– Ruim, não – respondeu Rodney. – Horroroso.

O comentário foi como um chute no estômago. Reagi com rapidez: procurei explicar que o que ele tinha lido era apenas um rascunho, procurei defender o esboço do romance que eu iniciava; em vão: Rodney tirou do bolso do jaquetão as páginas do romance, desdobrou-as e passou a triturar seu conteúdo. Fez isso sem paixão, como o legista que faz uma autópsia, o que me doeu ainda mais; mas o que mais me doeu foi que intimamente eu sabia que meu amigo tinha razão. Arrasado e furioso, com todo o rancor acumulado enquanto Rodney falava, perguntei-lhe se em sua opinião o que eu devia fazer era parar de escrever.

– Eu não disse isso – corrigiu-me, impávido. – O que você deve ou não deve fazer é assunto seu. Não há nenhum escritor que não tenha começado escrevendo um lixo como este ou até pior, porque para ser um escritor decente nem sequer é preciso ter talento: basta um pouco de esforço. Além do mais, talento não se tem, se conquista.

– Então, por que você me pergunta se eu tenho certeza de que quero ser escritor? – perguntei.

– Porque você pode acabar conseguindo isso.

– E qual é o problema?

– É que é um ofício muito filho-da-puta.

– Não é pior do que o de tradutor, imagino. Nem, por exemplo, do que o do minerador.

– Não tenha tanta certeza – disse, com uma expressão incerta. – Não sei, talvez só devesse ser escritor aquele que não possa ser outra coisa.

Ri como se procurasse imitar a risada feroz de um camicaze, ou como se estivesse me vingando.

– Ora, ora, Rodney: não vai me dizer agora que no fundo você é um maldito romântico. Ou um sentimental. Ou um covarde. Pois eu não tenho o menor medo de fracassar.

– Claro – disse ele. – Porque você não tem nem idéia do que seja isso. Mas quem falou em fracasso? Eu falava do sucesso. (more…)

Rafael Cardoso: ‘Entre as mulheres’

Saturday, May 26th, 2007

Se é um romance ou uma coleção de contos o livro “Entre as mulheres‘’ (Record, 256 páginas, R$ 35), de Rafael Cardoso, caberá ao leitor decidir. (Quem quiser pode aproveitar o momento interativo e decidir também se é de bom ou mau gosto essa capa que explica a piada, por assim dizer, praticamente abolindo a ambigüidade do título.) Aqui no meu canto, não acredito que seja importante chegar a uma definição sobre o gênero para ter prazer na leitura desses 16 perfis femininos traçados com sensibilidade – mas sem frescura – e uma sobriedade narrativa que evita toda pirotecnia, toda reinvenção da roda, para confiar apenas no poder das histórias que estão sendo contadas sob rubricas que mantêm o mesmo padrão: um nome de mulher, uma idade, um bairro carioca. Sim, além de uma declaração de amor às mulheres, Cardoso – que lançou pela mesma editora “A maneira negra” e “Controle remoto” – faz uma declaração de amor ao Rio de Janeiro. Os contos ameaçam se tornar um romance por meio de cruzamentos ocasionais entre as histórias, principalmente aqueles promovidos pelo personagem Rafael, homônimo do autor. Não me parece que isso seja o bastante para caracterizar um romance, mas não importa. Continuam valendo histórias como a de “Jamilly, Copacabana, 25”, da qual foi tirado o trecho abaixo:

O guichê da Pluma era o de número 64, e a passagem para Santo Ângelo saía a R$146,68. Isso, fazendo o roteiro Rio de Janeiro-Uruguaiana, passando antes por União da Vitória, Concórdia, Erechim, Passo Fundo, Carazinho e Ijuí. Talvez fosse até mais rápido um semileito direto para Porto Alegre, mas aí teria que pegar outro ônibus lá. Além do mais, só o trecho Rio-Porto Alegre sairia quase cinqüenta reais mais caro pela Penha. Cinqüenta reais era um boquete avulso. De jeito nenhum ela ia dar um boquete, assim de graça, para uma companhia de ônibus qualquer. Dinheiro suado, aquele! Não que ela precisasse fazer economia. Não mais. Graças a Deus. Mas não dava para ficar gastando à toa. O dinheiro guardado tinha destino certo: a casa que ela ia comprar. Própria. Sua casinha, onde havia passado a primeira infância em Santo Ângelo, antes do exílio. Antes da morte dos pais biológicos.

Na hora de preencher a ficha de embarque, por pouco não principiou a escrever “Jamilly” na linha nome do passageiro. Que engraçado, logo agora que finalmente se habituara àquele nome ridículo, não iria usá-lo mais. Era que nem horário de verão, ela pensou: quando a gente acostuma, acaba. O nome havia sido herança de uma outra Jamilly, que a antecedera no apartamento. Agora, tinha ficado para trás, em Copacabana, para a próxima que tomasse seu lugar. Seria para sempre o nome secreto de sua porção carioca, ponderou. Maria Eduarda Rossi de Araújo, escreveu, com a letra meticulosa e firme de quem só pega em caneta para anotar recado. Achou estranho ver seu nome escrito assim. Há muito tempo não se pensava como Maria Eduarda. Duda, para os amigos e familiares, que em breve reencontraria na fria madrugada gaúcha, entre as lágrimas culposas da mãe adotiva e o abraço seco do canalha que se fingia de pai. De quem ela continuava querendo distância, mesmo depois de tanto tempo. Em breve, estariam todos juntos, celebrando o Natal. Sim, os estupradores também comemoram as datas festivas.

Passou um homem junto dela e esbarrou com força no seu braço. Virou-se desequilibrada, esperando um pedido de desculpas, mas só encontrou um sorriso de deboche e um olhar velhaco, os quais sumiram rapidamente em seguida na multidão. Quem teria sido? Ele, pelo menos, a reconhecera. O rosto não lhe era totalmente estranho, mas ela costumava evitar olhar muito para o rosto deles. Era uma estratégia de sobrevivência que aprendera logo de início. Quanto menos se encarava o bicho nos olhos, menos se sofria com o resto. Pensando bem, não era verdade que a Jamilly tivesse ficado em Copacabana. Continuava ali, junto dela, naquela luminosidade fluorescente da Rodoviária Novo Rio, como uma alma penada que se recusava a desencarnar. Não via a hora de subir no ônibus e se livrar de vez desse visgo. Ainda faltavam vinte e cinco minutos até à hora da partida. Tudo bem, ela continuaria a ser Jamilly por mais vinte e cinco minutos. Não ia morrer por causa disso. Depois, se daria ao luxo simbólico de sacudir a poeira dos tênis antes de embarcar no carro que a levaria de volta ao futuro perdido. (more…)

Roberto Bolaño: ‘A pista de gelo’

Friday, April 20th, 2007

“A pista de gelo” (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 200 páginas, R$ 37), que chega às livrarias semana que vem, é um livro do chileno Roberto Bolaño. Isso bastaria para torná-lo um destaque entre os lançamentos da temporada. Um dos nomes mais citados aqui no Todoprosa, personagem de diversas notas nos últimos meses, Bolaño (1953-2003) vem se firmando no juízo da crítica internacional como o maior nome da literatura latino-americana pós-boom. Acontece que, além de tudo isso, este é o primeiro romance que ele publicou, em 1993, bem no início da torrente vertiginosa de lançamentos – romances, contos e poesia – que marcaria seus últimos dez anos de vida como expatriado em Barcelona. Nessa posição, se fica distante da grandiosidade de “Os detetives selvagens”, “A pista de gelo” tem um interesse especial para o admirador de Bolaño por apresentar pela primeira vez vários elementos de sua obra “madura” – adjetivo meio inadequado mas inevitável para o que o sujeito escreveria poucos anos depois.

Três narradores se alternam na condução da história, num prenúncio da megapolifonia que estava por vir. Um fundo de trama policial, mesmo passando longe de confinar o romance num gueto de gênero, fornece a eletricidade que move a narrativa e faz o leitor atravessar digressões, trechos “confusos” ou sujos, às vezes escatológicos (como este abaixo), com o passo firme de quem cumpre um percurso matematicamente calculado. Ah, sim, as obsessões semi-autobiográficas de Bolaño fazem de um dos narradores um poeta mexicano sem tostão que trabalha como vigia num camping da Catalunha. De alguma forma, já estava tudo lá, e ao mesmo tempo não estava. O livro é bom, mas a graça maior da leitura é procurar as fagulhas que em pouco tempo iam detonar a explosão, aquela que transformaria um escritor talentoso em excepcional. De Bolaño, a mesma editora publicou, em 2004, a novela “Noturno do Chile”.

Às vezes, quando eu ia até a cerca do camping, de madrugada, eu o via sair da discoteca do outro lado da rua, bêbado e sozinho, ou com gente que eu não conhecia, tampouco ele, a julgar pela sua atitude retraída, pelos seus gestos de astronauta ou náufrago. Uma vez eu o vi em companhia de uma loura, e essa foi a única ocasião em que me pareceu alegre, a loura era bonita e os dois davam a impressão de ser os últimos a sair da discoteca. As poucas vezes em que me viu nos cumprimentamos levantando a mão, e foi tudo. A rua é larga e nessas horas costuma ter um ar espectral, com as calçadas cheias de papel, restos de comida, latas vazias e vidros quebrados. De tanto em tanto você encontra uns bêbados que peregrinam para os respectivos hotéis e campings, e que terminam, a maioria, perdidos, dormindo na praia. Uma vez Remo astravessou a rua e me perguntou por entre as grades da cerca se o trabalho ia bem. Falei que sim e nos demos boa-noite. Não nos falávamos muito, ele quase não aparecia no camping. Bobadilla é que vinha todas as tardes, antes que eu começasse meu turno, e ficava um tempo olhando os livros e os arquivos. Com Bobadilla nunca cheguei a ter intimidade, cada quinze dias recebia meu pagamento e a isso se resumia nosso contato, um contato cortês, é verdade. Remo e Bobadilla, este em menor grau, eram apreciados por seus empregados: pagavam bem e sabiam se mostrar compreensivos se vez ou outra surgia algum problema. Os recepcionistas, uma moça de Z e um peruano que também era eletricista, e as três mulheres da limpeza, entre as quais havia uma senegalesa que em espanhol só sabia dizer olá e adeus, trabalhavam, dentro do possível, num ambiente descontraído que inclusive propiciava os romances: o peruano e a recepcionista tinham um caso. De todo modo, problemas entre empregados e patrões eram mínimos, e problemas entre empregados não existiam. Uma das causas possíveis dessa harmonia podia ser o caráter atípico do grupo que trabalhava ali: três estrangeiros sem visto de trabalho e três velhos espanhóis a quem em nenhum outro lugar queriam dar trabalho, e o quadro estava quase completo. (more…)

John Banville: “O mar”

Friday, April 13th, 2007

O escritor e crítico literário irlandês John Banville, 61 anos, é quase um desconhecido do público brasileiro. O que não chega a ser surpresa: ele também não goza lá de grande fama entre os leitores anglófonos. Considerado um autor “difícil” por sua prosa poeticamente trabalhada e pelo ritmo lento de suas narrativas, Banville nunca teve vendas além de uns poucos milhares de exemplares – tiragem de ficcionista brasileiro – até ganhar o Booker Prize de 2005, e com ele uma avalanche de manchetes, por este “O mar” (Nova Fronteira, tradução de Maria Helena Rouanet, 224 páginas, R$ 29,90). O romance é narrado de forma não linear por um crítico de arte de meia-idade que, tentando se recuperar da morte da mulher, retorna à cidadezinha praiana onde passava férias na infância e mergulha num mar de memórias dolorosas. A maior parte da crítica internacional saudou o livro como a obra-prima de Banville, e os elogios, embora eu ainda esteja no início da leitura, me parecem fundados. Do autor eu só tinha lido o interessante “O livro das provas”, lançado aqui pela Record em 2002. “O mar” promete mais. A beleza hipnótica de sua prosa, conservada pela tradução, brilha no trecho abaixo, que abre o livro:

Os deuses partiram no dia daquela maré estranha. Durante toda a manhã, sob um céu leitoso, as águas da baía foram subindo, subindo, atingindo alturas inauditas, com pequenas ondas lambendo a areia ressecada que, por anos a fio, não soube o que era umidade, a não ser pela chuva, e chegando até a base das dunas. Os despojos enferrujados do velho navio encalhado lá na entrada da barra, e que, para qualquer um de nós, estavam naquele lugar desde sempre, devem ter achado que tinha chegado a hora de voltar a navegar. Depois daquele dia, nunca mais nadei. As aves gritavam e mergulhavam do céu, parecendo perturbadas pelo espetáculo daquela imensa bacia cheia de água que inchava como uma bolha de um azul quase chumbo malignamente reluzente. Naquele dia, os pássaros estavam mais brancos, com uma cor nada natural. As ondas iam deixando uma faixa de espuma amarelada na areia. Nenhuma vela manchava a linha do horizonte. Não, não voltei a nadar depois desse dia. Nunca mais.

Acabou de passar alguém sobre o meu túmulo. Alguém.

A casa se chama Os Cedros, como antigamente. Um punhado eriçado dessas árvores, de um marrom cor-de-macaco, um cheiro rançoso de resina e os troncos assustadoramente retorcidos, ainda cresce à esquerda da casa, diante de um gramado maltratado que fica defronte da grande janela abaulada do cômodo que era a sala de visitas, mas que Miss Vavasour, como boa profissional do ramo, preferia chamar de saguão. A porta da frente fica do outro lado, dando para um pátio quadrado, recoberto de cascalho manchado de óleo, logo depois do portão ainda pintado de verde, embora a ferrugem tenha reduzido aquela pomposa grade a uma frágil filigrana. Fiquei impressionado ao ver como tudo mudou tão pouco nos mais de cinqüenta anos que se passaram desde que estive aqui pela última vez. Impressionado, e desapontado. Diria até horrorizado, por razões que não consigo descobrir; afinal, por que eu desejaria que as coisas houvessem mudado, logo eu, que voltei a viver em meio aos escombros do passado? (more…)

Jorge Franco: ‘Rosario Tijeras’

Friday, March 30th, 2007

Na votação dos cem maiores romances da língua espanhola dos últimos 25 anos, feita por críticos e escritores a pedido da revista “Semana” (veja nota abaixo), o romance “Rosario Tijeras”, lançado em 1999 pelo colombiano Jorge Franco (Alfaguara, tradução de Fabiana Camargo, 160 páginas, R$ 28,90), aparece na 87a posição. Pode parecer pouco. Não é. O número de bons autores que não chegaram a entrar na lista é grande o bastante para valorizar o feito desse escritor de 45 anos nascido em Medellín. O romance apresenta, numa narrativa supereditada e veloz, a história de uma assassina sexy do submundo de Medellín e dois rapazes de classe média apaixonados por ela. As semelhanças com uma certa corrente da literatura brasileira contemporânea fixada em sexo e violência — que podemos chamar de rubem-fonsequiana — são evidentes e curiosas. Mas os leitores que, até compreensivelmente, andam cansados do estilo devem levar em conta que “Rosario Tijeras” consegue trabalhá-lo com felicidade acima da média. O trecho abaixo abre o livro:

Como levou um tiro à queima-roupa ao mesmo tempo em que recebia um beijo, Rosario confundiu a dor do amor com a da morte. Mas tirou a dúvida quando afastou os lábios e viu a pistola.

— Senti um arrepio pelo corpo inteiro. Pensei que fosse o beijo… — me disse ela, desfalecida a caminho do hospital.

— Não fale mais, Rosario — disse-lhe, e apertando minha mão ela pediu que não a deixasse morrer.

— Não quero morrer, não quero.

Apesar de animá-la dando esperanças, minha expressão não a enganava. Até moribunda estava bela, fatalmente divina se esvaía em sangue quando entraram com ela na sala de cirurgia. A velocidade da maca, o vaivém da porta e a ordem estrita da enfermeira me separaram dela.

— Avisa a minha mãe — pude ouvi-la falar.

Como se eu soubesse onde morava sua mãe. Ninguém sabia, nem mesmo Emilio, que a conhecia tanto e teve a sorte de possuí-la. Liguei para ele. Ficou tão calado que tive de repetir o que eu mesmo não acreditava, mas, de tanto repetir para tirá-lo daquele silêncio, caí em mim e entendi que Rosario estava morrendo.

— Vamos perdê-la, cara.

Disse isso como se Rosario fosse dos dois, ou quem sabe tivesse sido um dia, num deslize ou no desejo constante dos meus pensamentos. (more…)

Julian Barnes: ‘Arthur & George’

Saturday, March 17th, 2007

Da grande geração de escritores ingleses que integra com Ian McEwan, Martin Amis e Salman Rushdie, Julian Barnes é o mais “europeu”, no sentido de sofisticado, afeito a sutilezas de composição e pensamento, numa tradição assumidamente francófila – pecado quase imperdoável em sua ilha. O que o torna também, previsivelmente, o de menor sucesso comercial dos quatro. Autor da obra-prima “O papagaio de Flaubert”, uma mistura de ensaio e ficção em que acerta contas com sua grande admiração literária, Barnes volta, em “Arthur & George” (Rocco, tradução de Léa Viveiros de Castro, 448 páginas, R$ 53,50), a transformar uma figura real da história da literatura em tema. Mas desta vez, embora a variedade sempre tenha sido uma marca de sua obra, surpreendeu até quem já esperava uma surpresa. O escritor cuja vida ele romantiza é popular e inglês até a alma: Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes. E o livro, o mais convencional que Barnes já escreveu. Ficção histórica consistente, cheia de pesquisa, “Arthur & George” conta em contraponto as histórias do médico Arthur Conan Doyle e de outro personagem real, o advogado George Edalji. Trata-se de dois antípodas: um inglês atlético e bem sucedido, um descendente de indianos acusado de um crime bizarro. Seus caminhos se encontram quando, procurado por George, Arthur decide imitar seu personagem famoso e investigar a injustiça de que o advogado foi vítima, expondo uma trama de ilegalidades e preconceitos na polícia e no Judiciário.

Ele tinha modernizado a investigação criminal. Ele a havia livrado dos representantes da velha escola de detetives de raciocínio lerdo, aqueles simples mortais que recebiam aplausos por decifrar pistas palpáveis deixadas no seu caminho. Em seu lugar, ele havia colocado uma figura fria e calculista que podia enxergar a pista de um assassinato num novelo de lã e condenação garantida num pires de leite.

Holmes trouxe fama instantânea a Arthur e – algo que o comando da equipe inglesa jamais teria trazido – dinheiro. Comprou uma casa de tamanho decente em South Norwood, cujo jardim de muros altos tinha espaço para uma quadra de tênis. Pôs o busto do avô no hall de entrada e alojou seus troféus árticos no alto de uma estante. Conseguiu um escritório para Wood, que parecia ter se estabelecido como auxiliar permanente. Lottie tinha voltado de Portugal, onde havia trabalhado como governanta, e Connie, apesar de ser a mais decorativa, estava se mostrando uma ótima datilógrafa. Ele tinha comprado uma máquina de escrever em Southsea, mas nunca conseguia manipulá-la com sucesso. Era mais habilidoso com a bicicleta de dois assentos que pedalava com Touie. Quando ela engravidou de novo, ele trocou a bicicleta por um triciclo, impulsionado unicamente por força masculina. Sempre que a tarde estava bonita, ele a levava em percursos de quase cinqüenta quilômetros pelas colinas de Surrey.

Ele se acostumou ao sucesso, a ser reconhecido e investigado, bem como aos diversos prazeres e embaraços das entrevistas de jornal.

– Aqui diz que você é um homem alegre, cordial e caseiro. – Touie estava sorrindo enquanto lia a revista. – Alto, de ombros largos e com um aperto de mão firme que, na sinceridade das boas-vindas, chega a machucar.

– Que revista é essa?

The Strand Magazine.

– Ah. Sr. How, se me lembro bem. Não exatamente um esportista, conforme desconfiei na ocasião. A pata de um poodle. O que ele diz de você, meu bem? (more…)

Bernardo Carvalho: ‘O sol se põe em São Paulo’

Monday, March 12th, 2007

Um escritor frustrado de São Paulo é abordado num restaurante da Liberdade por uma velha senhora japonesa que diz se chamar Setsuko. Ela deseja lhe contar a história de um triângulo amoroso de desenho cambiante, nebuloso, passado no Japão do pós-guerra. É assim que o narrador entra, e atrás dele o leitor, num labirinto de sombras, simulacros, mentiras e mal-entendidos, com personagens desenraizados em busca de uma verdade que sempre lhes escapa, deixando em seu lugar a versão, o texto. Ou lacunas. Bernardo Carvalho volta a confirmar sua posição de mais “pós-moderno” dos escritores brasileiros – o que é um clichê, sim, mas não apenas isso – com o romance “O sol se põe em São Paulo” (Companhia das Letras, 168 páginas, 34 reais). Sucessor coerente de “Nove noites” e “Mongólia”, o novo livro se aproxima mais do segundo por não ter a urgência e a visceralidade que, no caso do primeiro, isentam os constantes dribles narrativos da acusação de artificialismo. Mesmo assim, e apesar de um certo desleixo formal que se manifesta sobretudo em alguns tiques de estilo e informações repetidas, é inegável que a amplitude histórica, geográfica e, digamos, filosófica da tela na qual Carvalho risca suas histórias o torna um caso raro na literatura brasileira, e sua obra, um saudável manifesto antiprovincianismo. No trecho abaixo, tirado do primeiro capítulo, o narrador encontra pela primeira vez a misteriosa Setsuko:

Passados quase dez anos sem dar as caras, agora que estava desempregado e separado da minha mulher, depois de me foder por nada, trabalhando como redator de comerciais de uma agência de publicidade, eu voltava de vez em quando ao Seiyoken. Os garçons eram os mesmos e me tratavam como se eu fosse um velho conhecido. Pensando bem, o mais certo seria dizer que, se até então eu não a percebera, era porque ela não se fazia ver. E encontros como aquele esperam a hora certa. Era uma velha discreta, que uma noite saiu do seu canto debaixo da escada, como uma aparição, para me impor o mistério do seu recolhimento. Sempre que estava sozinho, eu preferia ficar no balcão. Pelo menos tinha a companhia do sushiman. Uma vez, lá pelas tantas, quando já não restava ninguém no restaurante, a velha que eu nunca tinha percebido saiu de trás da caixa registradora onde passava as noites – deve ter se levantado e se aproximado furtivamente, porque só a notei quando já estava ao meu lado – e foi direto ao assunto: “O senhor é escritor?”. Fiquei mudo. Devo ter arregalado os olhos de um jeito que costumava afligir a minha mulher, tanto que ela logo se explicou, como se pedisse desculpas, referindo-se a um garçom: “O rapaz me disse que o senhor é escritor”. Era uma velha de cabelos grisalhos e escorridos, presos num rabo-de-cavalo que lhe dava uma aparência escolar, um vestígio anacrônico da juventude distante, como se uma jovem atriz tivesse se maquiado para interpretar uma anciã no teatro. Acho que estava com um vestido de seda azul-escuro. Já não tenho certeza. Deve ter sido uma mulher bonita. Era magra. O nariz era pontudo. Não correspondia ao padrão oriental. Os olhos também não eram tão amendoados. Estavam inchados, intumescidos, como nas máscaras de teatro nô, como se ela tivesse acabado de acordar ou estivesse chorando. Não estava. Não era alta, mas para mim, sentado no balcão, a sua presença súbita, em pé ao meu lado, conferia à dona do restaurante uma imponência inesperada. Era o contrário de si mesma, de tudo o que se podia imaginar de uma velha japonesa. Eu não podia saber que naquela noite, pouco antes de sair do seu canto para me confrontar com a consciência de uma fantasia que eu achava já ter enterrado, ela recebera a pior notícia da sua vida.

“Não”, respondi, um pouco bêbado, incomodado com o que me pareceu a princípio algum tipo de ironia ou piada de mau gosto (ainda mais àquela altura, em que eu me via desempregado e sem nenhuma outra perspectiva), embora tivesse havido um tempo, dez anos antes, em que costumava alardear as minhas ambições mais íntimas em público, sem a menor vergonha, sempre que surgia a oportunidade. “Na verdade, nunca escrevi nada.”

“O melhor escritor é sempre o que nunca escreveu nada”, ela respondeu, sem dar a entender se a ironia era por decepção ou por alívio, e se recolheu à sombra da caixa registradora, debaixo da escada atrás da porta de entrada, de onde nunca devia ter saído.

Pela primeira vez, me senti mal de estar ali. Depois de tantos anos, vi o que já não queria ver, que a minha ilusão não ia acabar enquanto eu não escrevesse a primeira linha; entendi que não tinha vencido os sonhos de adolescente, como chegara a acreditar, porque ainda nutria aquela fantasia infernal, só que agora em silêncio, só para mim. No fundo, ainda achava que pudesse escrever – e um dia me salvar não sabia bem do quê. A loucura era que nunca tivesse escrito nada além de um punhado de roteiros de comerciais. E só isso permitia que eu seguisse pensando que podia ser (ou que era) escritor, e que podia me salvar. Terminei de comer o mais rápido que pude e pedi a conta. Estava envergonhado. Saí sem olhar para trás. Pensei em não voltar mais ao restaurante. Voltei na semana seguinte. (more…)

William Faulkner: ‘Luz em agosto’

Saturday, February 24th, 2007

“Luz em agosto”, do grande mestre americano William Faulkner (Cosac Naify, tradução de Celso Mauro Paciornik, 448 páginas, R$ 69), já teve uma tradução lançada no Brasil, pela Nova Fronteira, em 1983. Neste quarto de século, porém, tornou-se figurinha rara entre nós este romance que costuma ser considerado o mais acessível do autor (1897-1962) de “O som e a fúria”, a melhor porta de entrada em sua obra. Publicado em 1932, “Luz em agosto” talvez tenha mesmo mais ação e menos monólogos interiores do que os livros mais famosos do homem, embora não lhe faltem uma prosa luminosa e aquela atmosfera faulkneriana de decadência econômica e moral do Sul dos Estados Unidos. Como afirma a boa orelha assinada por Marçal Aquino, “há escritores que escrevem grandes livros. Há outros, mais raros, que instauram mundos”.

A acessibilidade não significa que o livro seja simples. O grande número de personagens faz de “Luz em agosto” uma malha de histórias que se cruzam, se completam e se corrigem, todas centradas na cidadezinha de Jefferson, no fictício condado de Yoknapatawpha. Os personagens que sustentam a construção, porém, são três, e todos párias: a adolescente Lena Grove, solteira e grávida, que chega em busca do pai fujão de seu filho; o reverendo Gail Hightower, que uma esposa infiel e suicida tornou malvisto no lugar; e o forasteiro Joe Christmas, figura misteriosa que compartilha com Jesus Cristo mais do que as iniciais e se situa exatamente a meio caminho entre o lugar do herói e o do vilão. Christmas é branco, mas acredita ter sangue negro (terá mesmo?), o que o condena à inadaptação aonde quer que vá. O trecho abaixo abre o capítulo 2 e marca sua entrada em cena:

Byron Bunch sabe o seguinte: foi numa manhã de sexta-feira, três anos atrás. E o grupo de homens que trabalhava no galpão da serraria levantou os olhos e viu o estranho ali parado, olhando na sua direção. Eles não sabiam há quanto tempo ele estava ali. Parecia um vagabundo, mas também não exatamente um vagabundo. Seus sapatos estavam empoeirados, e a calça, encardida. Mas ela era de sarja decente, bem vincada, e a camisa estava suja mas era uma camisa branca, e ele usava uma gravata e um chapéu de palha bastante novo inclinado num ângulo arrogante e provocador sobre o rosto impassível. Não parecia um vagabundo profissional em andrajos profissionais, mas havia nele alguma coisa definitivamente desarraigada, como se nenhuma vila ou cidade fosse sua, nenhuma rua, nenhuma parede, nenhum quadrado de terra seu lar. E parecia carregar sempre consigo essa consciência como se fosse uma bandeira, com um quê de implacável, solitário e quase altivo. “Como se”, disseram os homens mais tarde, “andasse apenas sem sorte por algum tempo e não pretendesse ficar nisso, e não fizesse caso de como se ergueria.” Ele era moço. E Byron o observou ali parado e olhando para os homens nos macacões manchados de suor, com um cigarro num canto da boca e o rosto sombria e desdenhosamente impassível meio de lado por causa da funaça. Passado um instante, ele cuspiu o cigarro sem encostar a mão, deu meia-volta e foi até o escritório da serraria, enquanto os homens de macacões desbotados e sujos do trabalho olhavam-no pelas costas com uma espécie de perplexo sentimento de afronta. “Devíamos passá-lo na plaina”, disse o capataz. “Talvez isso tirasse esse ar da sua cara.”

Não sabiam quem ele era. Nenhum deles jamais o vira antes. “Sem contar que é muito perigoso um homem exibir essa expressão no rosto em público”, disse um. “De repente ele se esquece e a usa em algum lugar onde alguém pode não gostar dela.” Depois eles o deixaram de lado, ao menos na conversa, e voltaram ao trabalho entre rangidos e chiados de eixos e correias. Mas não demorou dez minutos para o superintendente da serraria entrar com o estranho na cola.

“Empregue este homem”, disse o superintendente para o capataz. “Ele diz que se vira com uma pá. Pode colocá-lo no monte de serragem.”

Os outros não tinham parado de trabalhar, mas não havia um único homem no barracão que não estivesse olhando de novo para o estranho com suas roupas citadinas sujas, sua expressão insuportável e soturna e todo seu ar de frio e silencioso desprezo. O capataz olhou para ele rapidamente, o olhar tão frio como o do outro. “Ele vai fazer isso com essas roupas?”

“Isso é problema dele”, disse o superintendente. “Não estou contratando as roupas.” (more…)

Jonathan Coe: ‘A casa do sono’

Saturday, February 17th, 2007

Do escritor inglês Jonathan Coe, 45 anos, só li o romance que costuma ser considerado sua obra-prima, “O legado da família Winshaw” (Record, 2002, tradução de Celina Cavalcante Falck). Um livro divertido, despudoradamente farsesco, em que as histórias de variados personagens se cruzam numa trama complicada e não desprovida de artificialismo, para compor uma sátira feroz da Grã-Bretanha de Margaret Thatcher. Um bom romance cujo aparente defeito – uma certa candura ou confiança excessiva no poder do contador de histórias – termina por ser sua maior qualidade, ou pelo menos aquilo que o distingue no panorama literário atual. Não sei se fui claro: é evidente que Coe tem ambições, tanto estéticas quanto políticas, mas não cabe bem no figurino do literato. Provavelmente não é sequer um grande escritor, mas está tão empenhado em envolver o leitor em suas fabulações e comentar com ele o mundo lá fora – e não a própria literatura, o que o diferencia de boa parte do pós-modernismo em que se alinha – que acaba tendo uma vitalidade curiosa.

(Será que influi em minha simpatia o fato de Coe ter se revelado um sujeito sensato, afável e sem frescura quando nos conhecemos na Flip de 2004, em que fiz a mediação da mesa que ele dividia com o presunçoso Jeffrey Eugenides? Talvez. Isso não invalida nada, mas é sempre bom deixar explícito o risco de parti pris.)

“A casa do sono” (Record, tradução de Marcello Rolemberg, 400 páginas, R$ 49,90), que a editora apresenta como o “novo” romance de Jonathan Coe, só é novo aqui: foi lançado em 1998, logo depois da “Família Winshaw”. Conta as histórias cruzadas de estudantes que dividiram uma república nos anos 80 e se reencontram, mais de dez anos depois, na mesma casa, transformada agora numa clínica especializada em distúrbios do sono.

— Conte-me sobre seus sonhos — Gregory disse uma vez para Sarah, sentado naquele mesmo terraço, em uma manhã clara de novembro, muitos anos antes. — Conte-me há quanto tempo isso vem acontecendo.

Sarah aqueceu as mãos na caneca, tremendo um pouquinho por causa da brisa do oceano, e olhou para ele com carinho. Isso foi nos primeiros meses do relacionamento deles, muito antes de eles se distanciarem. Ainda achava, naqueles dias, que ele podia ser muito gentil. Ela ainda o considerava um homem sábio e compreensivo. Sentada naquele terraço, apoiada, como que por instinto, nele, com os joelhos tocando os dele, sentia que suas ansiedades começavam a se dissolver. Ele esquecia que eles vinham discutindo com mais freqüência, recentemente, e a respeito de coisas cada vez menores. Em relação ao sexo, ela repetia para si que ele melhoraria com o tempo. Tentava ignorar o fato de que, enquanto falava com Gregory, ele escrevia o que ela dizia em um caderno que trazia escrito na capa “PROBLEMAS PSICOLÓGICOS DE SARAH”.

De qualquer forma, ela estava excitada, não havia como negar: eles acabavam de fazer uma importante descoberta. Haviam encontrado uma explicação para algo que vinha confundindo Sarah nos últimos cinco anos ou mais. Eles haviam descoberto, naquela mesma manhã, que ela não conseguia notara diferença entre seus sonhos e as memórias de sua vida real.

— Conte-me sobre esses sonhos — Gregory estava dizendo. — Conte-me há quanto tempo isso vem acontecendo.

E Sarah tomou um longo fôlego, e contou para ele.

* * *

Isso começara, ela disse, quando tinha 14 ou 15 anos. Estava infeliz na escola, freqüentemente tinha problemas para terminar seus deveres de casa, e tinha um medo especial de seu professor de História, um certo Sr. Mountjoy. No fim de uma noite difícil, percebendo-se completamente incapaz de escrever um artigo sobre as causas da Guerra Franco-Prussiana — um artigo que ela teria de ler em voz alta na aula do dia seguinte —, ela fora para a cama aos prantos, disposta, em seu desespero, a faltar a aula no dia seguinte ou fingir estar doente. Mas, em vez disso, ela acordou com uma sensação imediata de leveza, com uma lembrança pura de ter escrito o artigo, e tendo escrito, ela sabia, em alto nível: ela conseguia visualizá-lo no livro de exercícios, quatro páginas e meia, diversas rasuras na página três, mas ainda assim limpinhas e apresentáveis, o título sublinhado duas vezes com caneta vermelha e com algumas notas de rodapé para dar a ele um aspecto acadêmico. E foi só às 11h30 daquele mesmo dia, na primeira aula após o intervalo, quando ela abriu o livro de exercícios pouco antes de ser chamada para ler diante da turma, que ela descobriu que o artigo, inacreditavelmente, não existia. (more…)

Juan Carlos Onetti: ‘47 contos’

Saturday, December 16th, 2006

Juan Carlos Onetti (1909-1994) é um dos menos conhecidos dos grandes escritores latino-americanos. Eu mesmo confesso que demorei demais a conhecê-lo. Mas que é um dos maiores – para muita gente mais nervosa no manejo dos superlativos, o maior – ficou claro para mim ao ler o romance “A vida breve”, na edição de 2004 da editora Planeta, com tradução impecável de Josely Vianna Baptista, que agora nos dá esses “47 contos de Juan Carlos Onetti” (Companhia das Letras, 448 páginas, R$ 42). O mais recente título da coleção de contos da Companhia – aquela com belas capas em estilo retrô de Jeff Fisher – traz todas as histórias curtas escritas por Onetti ao longo de seis décadas, de 1933, em Montevidéu, onde nasceu, a 1993, em Madri, cidade que adotou após ser exilado pelo regime militar, em 1975. Mestre da sutileza e do desencanto, com suas narrativas em que “nada acontece” ocupando quase programaticamente o pólo oposto ao das pirotecnias verbais e simbólicas do chamado realismo mágico, é até compreensível que esse uruguaio que se dividiu entre o jornalismo e a publicidade – sem jamais deixar de ser ficcionista – tenha sido mais lento que tantos de seus contemporâneos na corrida pela consagração. Mais compreensível ainda é que seu nome vá ficando cada vez maior, à medida que passam as modas. Leia abaixo o conto “Amanhã será outro dia”:

A chuva deixara os bulevares quase vazios e só restava gente agrupada no café envidraçado onde, havia meses, não a deixavam entrar.

Sonia, de pé no vestíbulo da casa vazia, viu que a chuva passava, fatigada, a manso chuvisco, viu-a cessar enquanto aumentava o frio do vento, e pensou que aquilo era sinal de boa sorte. Um pouco mais longe, do outro lado do amplo passeio, as luzes da cidade começavam a se acender. A noite tinha início, e, respirando o aroma tristonho de seu casaco molhado, Sonia pensou que também a esperança tinha início. Sorriu, sem realmente acreditar, como uma menina para a qual recitaram uma história já ouvida e inverossímil.

Apalpou novamente a crespa peruca loira e com grande cuidado — tinha as unhas muito compridas — foi esticando as meias ensopadas presas pelas ligas.

Sentiu fome de novo e lembrou que tinha um sanduíche de presunto no bolso. Mas não podia estragar o desenho da boca que fizera com batom e com tanto cuidado. Também lembrou que até o fim do mês estava em ordem com a polícia e obrigou-se a caminhar, aproximando-se da beira das calçadas para sorrir para os carros, rebolar e parar, fingindo procurar alguma coisa na bolsa enorme. Mas nada, ninguém, e sem dinheiro para tentar a sorte em bares onde ainda a deixavam entrar.

Era noite e depois madrugada no bairro sujo da grande cidade. E Sonia, já sem fome, quase sem esperanças, continuava caminhando sobre a dor dos sapatos de salto agulha.

Repetiram-se os breves diálogos com os homens que passavam.

— Vamos. Você vem?

— Vá tomar no cu.

— Gosto disso. Eu também posso botar se quiser experimentar. (more…)

Philip Roth: ‘Adeus, Columbus’

Saturday, December 9th, 2006

Críticas ao alto preço dos livros têm sido freqüentes na área de comentários do Todoprosa – com razão. Mais um motivo para comemorar o lançamento de “Adeus, Columbus”, livro de estréia do grande escritor americano Philip Roth (Companhia de Bolso, tradução de Paulo Henriques Britto, 288 páginas, R$ 19), composto do ótimo romance curto (ou novela) que dá título ao volume e mais cinco contos. Lançado em 1959, o livro é o primeiro a sair diretamente na linha de bolso da Companhia das Letras, sem ter passado por uma edição “normal”, e traz um Roth de preocupações joviais – embora já em pleno domínio de sua arte – falando do difícil amor do jovem Neil Klugman, judeu de classe média baixa, por Brenda Patimkin, judia rica. É um exercício interessante – ainda que melancólico – comparar o estilo daquele Roth de 25 anos com o dos últimos e crepusculares livros do autor a aparecerem aqui na seção “Primeira Mão”: O animal agonizante, em tradução do mesmo Paulo Henriques Britto, e o lancinante Everyman, ainda inédito no Brasil, num trecho vertido por mim. Leia abaixo uma das primeiras cenas de “Adeus, Columbus”.

Meu tio Max chegou em casa, e enquanto eu discava o número de Brenda mais uma vez ouvi garrafas de refrigerante sendo abertas na cozinha. A voz que atendeu dessa vez era aguda, seca e cansada. “Alô.”

Soltei o verbo. “Alô-Brenda-Brenda-você-não-me-conhece-quer-dizer-você-não- sabe-o-meu-nome-mas-eu-segurei-os-seus-óculos-hoje-no-clube… Você-me-pediu-pra-segurar-eu-não-sou-sócio-não-a-minha- prima-Doris-é-que-é-Doris-Klugman-e-eu-perguntei-quem-você-era…” Respirei, dando-lhe uma oportunidade de falar, e depois segui em frente em resposta ao silêncio do outro lado da linha. “A Doris? É aquela que está sempre lendo Guerra e paz. É assim que eu sei que chegou o verão, quando a Doris está lendo Guerra e paz.” Brenda não riu; desde o início era uma garota prática.

“Qual é o seu nome?”, ela perguntou.

“Neil. Eu segurei os seus óculos no trampolim, lembra?”

Ela me respondeu com uma pergunta, uma pergunta que, tenho certeza, é constrangedora tanto para os feios quanto para os belos. “Como é que você é?”

“Eu sou… bem moreno.”

“Você é negro?”

“Não”, respondi. (more…)

Isaac Bábel: ‘O Exército de Cavalaria’

Wednesday, November 29th, 2006

O assombroso Isaac Bábel (1894-1940), um judeu franzino de óculos nascido em Odessa, cumpriu um percurso tristemente típico de seu tempo e lugar: fulgurante escritor revolucionário soviético nos anos 20, uma espécie de Maiakóvski da prosa; visto com desconfiança cada vez maior e incomodado com os rumos tomados pelo país ao longo dos anos 30; preso como contra-revolucionário e assassinado pela máquina repressiva de Stálin em 1940; reabilitado oficialmente pelo Partido em 1957. Esse breve esboço biográfico vai aqui porque, em primeiro lugar, ajuda a dissipar um pouco do denso desconhecimento que paira sobre Bábel no Brasil, e depois por ter, na sua brutalidade, uma sinistra correspondência com a literatura do homem. O livro de contos que a Cosac Naify lança agora como vigésimo volume da coleção Prosa do Mundo, “O Exército de Cavalaria” (tradução e apresentação de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade; posfácio de Boris Schnaiderman e Otto Maria Carpeaux; capa dura, 256 páginas, R$ 55), já teve no Brasil, com o título de “A cavalaria vermelha”, até edição na série Clássicos de Bolso da Ediouro. Isso não o impediu de permanecer pouco conhecido entre nós, o que é lastimável. A edição atual, a primeira com tradução feita diretamente do russo, tem cuidados de forma e conteúdo que podem – se tivermos um pouco de sorte – mudar essa história. Escritos a partir das experiências de Bábel como correspondente no front da guerra russo-polonesa em 1920, os contos curtos e violentos de “O Exército de Cavalaria” têm uma estranha mistura de secura realista e imagística suntuosa que não se encontra em nenhum escritor antes ou depois de Bábel. No posfácio, Schnaiderman os chama de “texto-paradigma do século XX”. E explica: “Com o seu sabor acre de sangue e terra, com sua violência que nos deixa perplexos, eles estão realmente entre os escritos que expressaram melhor aquele século de horror e de mudança”. Leia a seguir o conto “O filho do rabino”:

… Lembra-se de Jitómir, Vassíli? Lembra-se do Tiéteriev, Vassíli, e daquela noite em que o sabá, o novo sabá, insinuava-se ao longo do crepúsculo, esmagando as estrelas sob seu tacão vermelho?

O corno esguio da lua banhava suas pontas nas águas escuras do Tiéteriev. O ridículo Guedáli, fundador da Quarta Internacional, levou-nos à casa do rabino Motale Bratslávski, para a oração da noite. O ridículo Guedáli sacudia as penas de galo de seu chapéu alto na fumaça vermelha do anoitecer. As pupilas rapinantes das velas bruxuleavam no aposento do rabino. Debruçados sobre os livros de orações, judeus espadaúdos gemiam surdamente, e o velho bufão dos tsadiks de Tchernóbyl fazia tilintar moedas de cobre no bolso rasgado…

… Lembra-se daquela noite, Vassíli?… Do outro lado da janela os cavalos relinchavam e os cossacos gritavam. O deserto da guerra bocejava lá fora, e o rabino Motale Bratslávski, com os dedos consumidos cravados no talete, orava junto à parede do Oriente. Daí a cortina da arca foi descerrada e, à luz funérea das velas, vimos os rolos da Torá metidos em suas capas de veludo púrpura e seda azul, e, debruçado sobre a Torá, o belo rosto inanimado e submisso de Iliá, o filho do rabino, o último príncipe da dinastia…

E eis que, faz uns dois dias, Vassíli, os regimentos do Décimo Segundo Exército deixaram o front em Kóvel a descoberto. Na cidade ribombou o desdenhoso bombardeio dos vencedores. Nossas tropas vacilaram e se misturaram. O trem da Secpolit começou a rastejar pela espinha morta dos campos. Camponeses tifosos rolavam diante de si a tão conhecida corcova da morte do soldado. Eles saltavam nos estribos do nosso trem e eram derrubados a coronhadas. Fungavam, debatiam-se, voavam longe e silenciavam. Uma dúzia de verstas depois, quando as batatas acabaram, atirei-lhes uma pilha de panfletos de Trótski. Mas só um deles estendeu a mão morta e suja para apanhar um panfleto. E eu reconheci Iliá, o filho do rabino de Jitómir. Eu o reconheci na hora, Vassíli. Ver o príncipe, que perdera as calças, dobrado em dois sob a mochila de soldado, doía tanto que, desobedecendo aos regulamentos, nós o puxamos para dentro do vagão. Seus joelhos nus, desajeitados como os de uma velha, batiam nos degraus enferrujados; duas datilógrafas peitudas, com blusa de marinheiro, arrastaram pelo chão o corpo comprido e envergonhado do moribundo. Nós o depositamos num canto da redação, no chão. Cossacos de calças bufantes vermelhas ajeitaram-lhe a roupa caída. As moças, plantando no chão suas pernas tortas de fêmeas broncas, observavam friamente os órgãos genitais, a virilidade mirrada e crespa de um semita que tinha definhado. Mas eu, que o vira numa das minhas noites errantes, comecei a arrumar no baú os pertences espalhados do soldado Vermelho Bratslávski. (more…)

Edward Pimenta: ‘O homem que não gostava de beijos’

Sunday, November 26th, 2006

Eu nunca tinha ouvido falar de Edward Pimenta. A orelha de “O homem que não gostava de beijos” (Record, 128 páginas, R$ 27,90) informa que ele é jornalista, nascido em Mirassol (SP) em 1974. Ah, sim: na introdução, o diretor de teatro Gerald Thomas se rasga em elogios. Hmm. Confesso que isso não preparou meu ceticismo de retinas tão fatigadas para o prazer de ler esses 31 contos breves protagonizados por um personagem de mil caras chamado Horace Catskill. O tênue fio condutor desse nome parece ser a razão pela qual o material de divulgação chama o livro de “romance”, coisa que ele definitivamente não é. Pimenta, que talvez seja antes de tudo um humorista, revela-se também um prosador talentoso e – coisa rara em nossas letras – cosmopolita, no controle de infinitas referências pop, mas sem traço de deslumbramento. Vale a pena vencer a barreira do título careta, curiosamente menos provocante que o da maioria dos contos, para descobrir, por exemplo, o que uma mosca encontra ao entrar pelas fossas nasais de Michael Jackson. Sabe aquela sisudez tristonha que a literatura brasileira gosta de confundir com seriedade, mencionada na nota de ontem – a sisudez que Campos de Carvalho, por exemplo, pagou caro por não cortejar? Nem sinal dela aqui. No continho abaixo, chamado “Um duelo com Luther Blissett”, Catskill se encontra numa taverna atemporal com Charles Dickens, o autor de “Oliver Twist”, e Luther Blissett, escritor fictício criado nos anos 1990 por um “coletivo” de artistas italianos disposto a provar a falência da idéia de autoria.

Charles Dickens, Luther Blissett e eu estamos nos vértices de um triângulo perfeito dentro da taverna. Coisa de cinco metros. Blissett consegue observar os dois, enquanto eu sou obstruído por umas mulheres risonhas. Só consigo encarar Blisset. Dickens está de férias. Passa temporadas no litoral pedregoso de Broadstairs para descansar do tumulto da capital. Vai sendo tragado pelo século XIX. Tomo cidra filtrada aos borbotões e sinto que não dormirei sem antes arrumar uma briga.

Qualquer pessoa bem informada sabe que Luther Blissett é uma fraude. E que seu projeto literário se ampara num manjado artifício de cruzar informações históricas com ficção, de preferência com ambientação medieval, porque é mais difícil de checar. Aproveitando que ele agora resolveu trafegar pelos estertores do Oitocento, sinto-me à vontade para freqüentar seu bar preferido, bisbilhotar sua casa e assediar sua mulher.

Como todo filósofo mistificador, Blissett é um homossexual. A grande verdade é que não acrescenta uma linha sequer ao pensamento de Schopenhauer e Spinoza. Essa é a verdade. Uma verdade objetiva. Ele está tomando absinto, que também é coisa de salta-pocinhas. Posso adivinhar que vibra com a hipótese de que sua mulher possa ser currada por uma legião de homens mais machos do que ele. (more…)

Sérgio Rodrigues: ‘As sementes de Flowerville’

Saturday, November 11th, 2006

Momento de autopromoção explícita: o titular deste blog tem um enorme telhado de vidro, inversamente proporcional à cobertura capilar que lhe resta. Autor do livro de contos “O homem que matou o escritor” (Objetiva, 2000) e da coletânea de crônicas “What língua is esta?” (Ediouro, 2005), está lançando na semana que vem seu primeiro romance, “As sementes de Flowerville” (Objetiva, 136 páginas, R$ 28,90). Os leitores do Todoprosa que moram no Rio ou estiverem passando por aqui nesta terça-feira, dia 14, estão convidadíssimos para um aperto de mão e dois dedos de prosa: a noite de autógrafos rola a partir das 19h na Livraria Argumento do Leblon (Rua Dias Ferreira, 417). Abaixo, um trecho do livro, que, instigado por um amigo a definir em duas palavras, resolvi chamar na intimidade de “farsa futurista”. O que é um rótulo tão idiota quanto qualquer outro, mas tem a vantagem de prometer alguma originalidade. Quantas farsas futuristas têm sido lançadas no Brasil?

Adelina começa a sentir contrações no meio da tarde do feriado de Sete de Setembro. Quando chega a noitinha e as dores estão vindo de dois em dois minutos, Sebastião corre com o vigor de seus vinte anos até a casa da parteira, bate palmas. Grita, se desespera, e nada. Uma vizinha aparece na janela com creme cor de abacate na cara e diz que a parteira foi passar o feriado com a filha que mora em outra cidade, só volta no dia seguinte. Sebastião responde, com vontade de chorar, que no dia seguinte é tarde. A mulher faz cara de foda-se e bate a janela.

É nessa hora que decide, o plano surgindo inteiro de uma vez, levar Adelina ao hospital. Se o trânsito ajudar, podem chegar lá em meia hora. A poucos passos da casa da parteira vê o Opala de quatro portas estacionado.

Quase entra com o Opala barraco adentro: freia no último instante, levantando poeira na rua de terra. Adelina está deitada na cama, olhos de louca, empapada de suor. Sebastião pega aquilo tudo no colo – a barriga de Adelina, o suor de Adelina, a respiração de Adelina, além da própria Adelina – e corre até o Opala. Ela geme no banco de trás. Ele arrasta uma nuvem de pó favela abaixo, vai escurecendo depressa, no meio do caminho acha que atropelou um cachorro, parece o Marechal, o velho vira-lata do Zoinho, seu amigo de infância, que pena, e daí.

Vai dar certo.

Não, não vai dar certo.

No asfalto, lembra-se de conferir o mostrador de combustível – na reserva. No chão da reserva. Vão ficar na estrada a qualquer momento. Adelina berra mais alto.

Não é justo, pensa Sebastião.

– Puta que o pariu! – grita. – Tá de sacanagem, maluco!

Adelina zurra, arfa, bale, zune.

– Vai tomar no cu, filho-da-puta!

Está rindo, Sebastião. Insulta Deus e ri, histérico. Que grande filho-da-puta. Pisa mais fundo no acelerador, não porque acredite na possibilidade de vitória contra o Escroto Supremo, mas para apressar a derrota, acabar logo com isso. O que seria, então? Um parto na estrada, noite escura já, só os faróis para jogar sua luz dura sobre a natividade, aquela sangueira toda?

Que fosse. Que ganhasse o puto, o Sacana-Mor, e a ele, Sebastião, só restasse o insulto, mas – o que era aquilo? Uma miragem? (more…)

Juan Claudio Lechín: ‘A gula do beija-flor’

Saturday, November 4th, 2006

O boliviano Juan Claudio Lechín, 50 anos, está deixando de ser inédito no Brasil: lança hoje, na Feira de Porto Alegre, seu romance “A gula do beija-flor” (Bertrand Brasil, tradução de Ernani Ssó, 332 páginas, preço a definir). Premiado na Bolívia, o livro acompanha um congresso secreto de grandes especialistas em sedução e sexo, organizado em La Paz pelo protagonista, dom Juan, homem idoso – e velha estrela do sindicalismo – que se recusa a entregar os pontos. Cada capítulo traz o relato picante de um dos congressistas, histórias que dom Juan passa a usar em benefício próprio para tentar seduzir Maya, a estudante de jornalismo que o entrevista. E o que poderia ser apenas um compêndio de machismo latino-americano acaba virando, por engenho do autor, um tributo à esperteza feminina. Não estará errado quem lê-lo ainda como painel das relações sociais num país em ebulição. Com arestas formais que a linguagem, freqüentemente à beira do neologismo, espelha, “A gula do beija-flor” é um livro no mínimo vigoroso em sua mescla de humor safado e uma profunda melancolia. Impossível ficar indiferente ao retrato, patético mas terno, de um homem que se recusa a desistir de uma fome que hoje está sobretudo em sua memória. Leia abaixo o trecho inicial:

Apesar da obscuridade de sua mente, dom Juan sabia que a intensa aclamação que lhe dedicavam não era por estar presidindo algo tão excêntrico como um congresso de sedutores ou por sua bem merecida condição de prócer da nação, mas principalmente pela maneira amável com que as pessoas honram aqueles que deixaram de ser perigosos.

Concentrou-se em nada para não chorar de emoção. Do ambiente pareciam se desprender salvas e serpentinas. Havia envelhecido até o absurdo, ele que costumava manter o país em suspenso, que com sua presença imantava as massas para derrotar ditaduras militares, guerreiro mitológico que capitaneou o triunfo dos k’estis, os pintados, como chamavam os mineiros, mistura de fuligem e glória, cholos, mestiços de índio, que tinham resolvido a insurreição de abril com o arrebatamento mortal da dinamite, disputando, desde então e para sempre, o poder centenário com uma oligarquia brancóide e excludente, e entregando à história um país vestido com a cor de suas raças. Pigarreou. Mas nem sequer essa divina inspiração do triunfo revolucionário, a mesma adrenalina que fez com que as hostes cruzadas arrasassem Constantinopla, evitou que abandonasse louros, cerimônias e aduladores para correr por entre o barulho esporádico dos obuses, últimos focos de uma resistência inútil, para se render diante de uma bela dama com quem tinha um encontro marcado. Depois que ela o repreendeu amargamente por acabar com a existência de sua classe, tirou o sutiã e permitiu que ele bebesse suas lágrimas.

A mão se moveu sozinha dando ritmo à papada. Quis deter essa demonstração de precariedade desconcentrando a vontade. A velhice lhe doía, e a quietude é sempre o melhor remédio contra a dor. Claro que se não fosse por essa dor profunda da decrepitude – que, na realidade, mais que uma dor é uma impossibilidade flagrante –, jamais teria se realizado o evento que se inaugurava neste preciso momento, tão significativo para ele. Mas este congresso, apesar de sua pompa, não era uma dessas maluquices com que os anciãos ridicularizam a si mesmos? Uma paródia feita com retalhos de glória que se desculpa entre risos?

Um mês atrás, durante as chuvas que precedem o carnaval – e que atemorizavam muito dom Juan porque ele sabia que, se passasse essa estação sem contrair uma pneumonia fulminante, teria ganho mais um ano –, se apresentou em seu pequeno apartamento uma jovem estudante. Como tantas outras, vinha entrevistá-lo e levar na fita gravada o autógrafo indelével de sua voz. Escoltado por Elmer, seu escudeiro, como ele se autodenominava, estava vendo um filme chinês de decapitações e caratezaços, anestesia para sua decadência, quando soou a campainha. Ouviu uma voz melodiosa pedindo o encontro e Elmer indagando e criando obstáculos. De maneira trêmula, dom Juan ordenou que ele não fosse tão “grosso” e a deixasse entrar. (more…)

Luis Fernando Verissimo: ‘A décima segunda noite’

Sunday, October 29th, 2006

Um papagaio francês é o narrador do quinto romance de Luis Fernando Verissimo, “A décima segunda noite” (Objetiva, 148 páginas, R$ 28,90), que chega às livrarias no dia 16 de novembro. Segundo título da coleção Devorando Shakespeare, dedicado a histórias baseadas na obra do dramaturgo inglês, o livro se inspira na comédia “Noite de Reis”. Um dos maiores cronistas da literatura brasileira em qualquer época, Verissimo costuma se sair bem nas narrativas longas – em seu caso, nem tão longas assim –, que só escreve quando lhe encomendam. Foi assim com “O jardim do diabo” (L&PM, 1988), o primeiro e preferido deste escriba, e também com “Gula – O clube dos anjos” (Objetiva, 1999), “Borges e os orangotangos eternos” (Companhia das Letras, 2000) e “O opositor” (Objetiva, 2004). O primeiro título da coleção Devorando Shakespeare foi “Trabalhos de amor perdidos”, de Jorge Furtado. O próximo será “Sonhos de uma noite de verão”, de Adriana Falcão. Abaixo, o trecho inicial de “A décima segunda noite”:

Mon Dieu, mon Dieu, um gravador. Deus dos papagaios, me acuda. Já ouvi minha voz gravada. Quase silenciei para sempre. É o som do caldeirão rachado com o qual pretendemos comover as estrelas e só conseguimos fazer dançar os ursos, como escreveu Flaubert sobre a linguagem. Tente dizer qualquer coisa séria, ou profunda, com voz de papagaio. Mesmo em francês. Impossible. Foi por isso que não me deram atenção, e a comédia que vou contar quase virou tragédia. Eu avisei, me esganicei, mas me ouviram?Diziam “Le perroquet, qu’est qu’il dit?”. E riam. Eu avisando que não era comédia, era drama, era tragédia. Tinha paixão, traição, perfídia, sociologia. E riam, riam. Culpa da voz, minha sina. Com voz de papagaio, nada é importante, nada é trágico. Dizem que Shakespeare lia suas comédias com voz de papagaio para seus atores, que nunca entendiam o que ele escrevia. Só assim eles sabiam que não era tragédia. Não havia gravadores no tempo de Shakespeare. Quantos não devem sua fama póstuma ao fato de não haver um gravador por perto? O mundo talvez fosse outro se descobrissem que Péricles tinha a voz fina, Napoleão a língua presa e… Mas vamos à entrevista. Sei o que vocês querem ouvir. É sobre a santa que era santo, nespá? Sobre o passado. Pelo menos estão interessados no que eu tenho para contar. Só o que ouço aqui é “Le perroquet, qu’est qu’il dit?” e “Tais toi, Henri!”. Fazem pouco das digressões de um caldeirão rachado. Esse é outro terror do gravador: ele não permite digressões. E o que é um papagaio sem digressões? Essa fita girando, girando, como a vida se aproximando do fim, nos obrigando a ser sucintos e breves. É contra a natureza dos papagaios serem sucintos e breves. Durante séculos, milênios, gerações e gerações, vivemos com a capacidade de falar sem saber que a tínhamos. Imaginem. Uma espécie inteira que se autodesconhecia. Imitávamos uns aos outros, imitávamos os outros bichos e os sons da floresta, mas só quando ouvimos um humano falar, pela primeira vez, descobrimos este nosso talento para articular palavras. E descobrimos o que nos faltara durante gerações e gerações de loquacidade desperdiçada e sons desconexos:assunto. Até hoje,em florestas desabitadas, papagaios selvagens voam em bandos cacofônicos sem conhecer a delícia de fazer uma frase completa, os prazeres da prosódia. É em nome deles que eu falo tanto assim. E para recuperar o tempo perdido, o nosso tempo sem assunto. Eu estaria traindo a minha ascendência se fosse sucinto e breve. Eu… Está bem, a história. Vamos a ela. Está gravando? Isso é um gravador ou uma caixa de pílulas? Ridicule. Mas vamos lá. (more…)

António Lobo Antunes: ‘Conhecimento do Inferno’

Saturday, October 21st, 2006

“Conhecimento do Inferno” (Alfaguara, 248 páginas, R$ 37,90), o terceiro romance lançado pelo escritor António Lobo Antunes, em 1980, fecha uma trilogia que começou a chegar ao Brasil com a publicação, pela Objetiva, de “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”. Como a dos outros dois, a narrativa de “Conhecimento do Inferno” é conduzida por um psiquiatra, veterano da guerra colonial em Angola, aqui num longo monólogo interior enquanto viaja de carro por Portugal. O contraste entre o tempo exíguo em que se passa a “ação” e o tempo dilatado da memória do protagonista representa um desafio técnico que a prosa de Lobo Antunes vence com um pé nas costas. Prosa que é, em si, o próprio livro, a literatura inteira desse autor de 64 anos que, para muita gente, era mais merecedor do Nobel do que seu conterrâneo José Saramago. Não vou entrar nesse Fla x Flu, aliás besta. Mas não há dúvida de que a escrita de Lobo Antunes, exaltadamente poética, caudalosa e rigorosa ao mesmo tempo, tem uma beleza plástica que às vezes, em meio a certas páginas, dá uma vontade danada de sair por aí gritando que estamos diante do maior escritor vivo da língua. Um superlativo vão, é claro. Até porque, em outras páginas, talvez se comece a desconfiar que tanto talento verbal beira o preciosismo exibicionista, a esterilidade. Talvez, talvez. Mas o trecho abaixo não deixa ninguém negar: como escreve, o António.

Saiu da Quinta da Balaia, do verde domesticado e snob da Quinta da Balaia na qual a sombra das árvores imprime um leve tom vermelho, quase róseo, como o dos búzios, das conchas, e de tudo onde o eco do mar se enrola e canta, e dirigiu-se para a vila de Albufeira em que as paredes das casas se assemelham a lençóis lavados, muito brancos, brancos sobre o azul branco do céu. Operários de bicicleta pedalavam na estrada ao sol, reis magos transportando a mirra do almoço nas marmitas das lancheiras, e ele espiou pelo retrovisor as suas feições sérias de retábulo, lavradas a cinzel na pedra escura dos ossos, pensando que no rosto moreno dos homens morava algo de cal e do gesso dos muros, algo das nuvens de Van Gogh sobre os corvos e o trigo, formadas não pela ausência de cor mas pela tempestuosa acumulação de todas elas, amarelos violentos, roxos trágicos, castanhos do sangue coagulado numa ferida aberta, do sangue que nunca seca numa ferida aberta. O meu país, decidiu, são os painéis de Nuno Gonçalves sob a impiedade da luz, faces secas e humildes talhadas sem simetria na madeira dos músculos, baços olhos que não voam tal os dos presos e os dos cegos, tristes olhos cheios de orgulho como os dos cães à noite, fosforescentes de inquietação, de zanga, de suspeita, pedalando nas estradas do Algarve a caminho de casa entre tabuletas de restaurantes, de discotecas, de aldeamentos, de bares, ingleses pálidos, holandeses etéreos, suíças levitantes como anjos, pessoas sem um peso de terra pobre nas tripas como nós, de magras raízes, de furiosas ondas, de pedras à beira-mar onde o sumo dos sinos se prolonga, idêntico ao latir de uma veia na almofada. (more…)

Orhan Pamuk: ‘Neve’

Thursday, October 12th, 2006

O Nobel conquistado hoje pelo escritor turco Orhan Pamuk será comemorado no Brasil com o lançamento, dentro de duas semanas, de “Neve” (Companhia das Letras, tradução de Luciano Machado, 488 páginas, preço a definir). Trata-se do oitavo romance de Pamuk e, em suas palavras, “o primeiro e último político”. A história é realmente política do início ao fim, embora nada tenha de panfletária. O autor cria um microcosmo isolado por uma nevasca, a pobre e decadente cidadezinha de Kars, para encenar ali os conflitos étnicos, religiosos e ideológicos que agitam a Turquia de hoje – sobretudo o abismo que se abre num país dividido entre a modernidade ocidental e o tradicionalismo islâmico. A princípio uma testemunha perplexa do conflito, do qual acaba por se tornar peça-chave, Ka é um jornalista e poeta turco que passou os últimos anos exilado na Alemanha por razões políticas e visita a cidadezinha com dois objetivos: escrever sobre uma estranha epidemia de suicídios entre jovens muçulmanas e propor casamento à bela Ipek, sua colega dos tempos de universidade. No trecho abaixo, Ka reencontra Ipek pela primeira vez e tem com o editor do jornal local uma conversa que traça as linhas gerais da guerra que está por vir.

Ka estava deitado na cama de casaco, perdido em devaneios, quando bateram à porta; levantou-se de um salto para atender: era Cavit, o recepcionista do hotel, que passava os dias ao lado da estufa assistindo à televisão. Viera dizer a Ka algo de que tinha se esquecido quando este entrou.

“Esqueci de dizer que Serdar bei, o dono da Gazeta da Cidade Fronteiriça, quer ver o senhor imediatamente.”

Tendo descido as escadas, Ka estava prestes a sair do saguão, quando estacou, como que paralisado: naquele exato momento, pela porta atrás do balcão de recepção, surgiu Ipek. Ele se esquecera do quanto ela era bonita em seus tempos de universidade, e agora, com a lembrança subitamente reavivada, sentiu-se um tanto nervoso em sua presença. Era exatamente isso – ela era bonita a esse ponto. Primeiro trocaram um aperto de mão à maneira da burguesia ocidentalizada de Istambul, mas, depois de um instante de hesitação, inclinaram a cabeça para a frente, abraçaram-se, sem deixar que seus corpos se tocassem, e beijaram-se nas faces.

“Eu sabia que você viria”, disse Ipek, dando um passo atrás. Ka ficou surpreso em ouvi-la falar de forma tão desenvolta. “Taner ligou para me contar.” Ela fitou-o diretamente nos olhos ao dizer isso.

“Vim para cobrir as eleições municipais e o caso dos suicídios das garotas.”

“Por quanto tempo você vai ficar?”, perguntou Ipek. “Agora estou muito ocupada, trabalhando com meu pai, mas há um lugar chamado Confeitaria Vida Nova, ao lado do Hotel Ásia. Vamos nos encontrar lá à uma e meia. Então poderemos pôr a conversa em dia.”

Se eles tivessem topado um com o outro em Istambul – digamos, em algum lugar em Beyoglu –, teriam tido uma conversa normal: era por estar ocorrendo em Kars que ele se sentia tão estranho. Ka não sabia ao certo que parcela daquela agitação poderia ser atribuída à beleza de Ipek. Depois de andar por algum tempo na neve, surpreendeu-se pensando: “Estou tão feliz por ter comprado este casaco!”.

A caminho da redação do jornal, seu coração lhe revelou uma ou duas coisas que sua cabeça se recusou a aceitar: primeiro, voltando de Frankfurt para Istambul pela primeira vez em doze anos, seu propósito era não apenas assistir aos funerais da mãe mas também encontrar uma jovem turca com quem se casar; segundo, foi por esperar secretamente que essa jovem fosse Ipek que Ka empreendera a viagem de Istambul para Kars. (more…)

Manuel Bandeira: ‘Crônicas da província do Brasil’

Saturday, October 7th, 2006

No 120o aniversário de nascimento de Manuel Bandeira (1886-1968), sua obra em prosa começa a ser relançada com método em edições caprichadas – e pelo começo. “Crônicas da província do Brasil”, de 1937 (Cosac Naify, posfácio e notas de Júlio Castañon Guimarães, 320 páginas, R$ 48), abre a fila com o requinte típico da editora paulistana, campeã indiscutível na produção de livros como objetos de desejo: capa dura, três versões de capa, fotos internas.

O conteúdo justifica o tratamento luxuoso e promete dar um susto em quem, até compreensivelmente, se acostumou a pensar em Bandeira só como poeta, e dos maiores. Se Rubem Braga era um versejador não mais que curioso, por que alguém imaginaria que o pernambucano tinha na crônica qualquer brilho especial?

Bom, ele tinha. “Crônicas da província do Brasil”, reeditado como volume autônomo pela primeira vez desde o lançamento, é uma coletânea de textos publicados na imprensa. Nem todos podem ser considerados crônicas no sentido estrito da palavra: há ensaios de fôlego erudito sobre patrimônio histórico, críticas literárias, perfis de amigos, um atualíssimo artigo em defesa do jeito brasileiro de falar português, historinhas ligeiras de sabor ficcional – coisa à beça. Em extensão e intensidade, um cardápio variado. E mesmo assim o livro tem coesão, se deixa ler com prazer contínuo, sem sobressaltos.

Quase todos os textos tratam de questões brasileiras, o que ajuda. Refletem a cultura nacional num momento em que, saída da crise adolescente de 1922, ela lutava para tomar posse de sua fugidia maioridade. Não é uma coincidência que, como aponta Castañon no posfácio, “Casa grande & senzala” seja da mesma época (1933) e Gilberto Freyre tenha sido um grande incentivador do livro de Bandeira.

O foco no Brasil, porém, não seria suficiente para dar coerência ao saco de gatos. O ingrediente mágico, talvez o único que se repete em todas as páginas de “Crônicas da província do Brasil”, é a prosa de Manuel Bandeira, com sua fusão profundamente pessoal – e artisticamente difícil – entre uma certa elegância clássica e um molejo brasileiro modernista. O estilo acaba se casando tão bem com a visão que o autor apresenta do mundo, e sobretudo do Brasil inserido no mundo, que a sedução dessa voz lhe permitiria incluir praticamente qualquer tema na conversa. Bandeira era bom de prosa em mais de um sentido da palavra.

Era inseguro também. Em carta de 1930 a Mario de Andrade, disse viver, como prosador, “desconfiado que estou dizendo bestidades, bobagens, lugares-comuns”, porque o desafio “pede inteligência, pede cultura, pede reflexão e eu me sinto muito mal preparado…”. O texto abaixo, uma deliciosa crônica-conto, trata de desmenti-lo com todas as letras.

Em tempo: a Cosac Naify planeja lançar ano que vem mais duas coletâneas publicadas pelo Bandeira cronista em vida – “Flauta de papel”, de 1957, e “Andorinha, andorinha”, de 1966 – e outras duas de textos inéditos em livro.

REIS VAGABUNDOS

Juque! o outro não teve tempo de acabar o insulto: um soco bem colocado nos queixos atirou-o por cima de uma das mesas do bar. No meio da confusão, vidros partidos, bebida entornada, um garçon (os garçons gostavam dele) encaminhou o agressor para o mictório, de onde por uma escada de mão se subia a uma soteiazinha, que era depósito de víveres e bebidas. Isso era novidade para ele. Foi só quando os seus olhos se habituaram à meia escuridão do local, que percebeu nas prateleiras as latas de foie gras e mortadela, os queijos, “and lo! creation widened in man’s view”1, a bateria impressionante dos Black Label e dos White Horse ali ao alcance da mão.

— Eta, sabiá da mata! O sol quando nasce é para todos!

Quebrou o gargalo de uma garrafa numa quina de madeira e o whisky começou a rolar dentro e fora da boca. Um desperdício de roquefort completou aquela orgia sem mulheres. Meia hora depois o mesmo garçon que o encaminhara ali, veio avisar que o caminho estava desimpedido.

Desceu na calada e ganhou a rua. Hep! Rapidez e eficiência. Na rua Treze de Maio sentiu que não podia esperar. Desacatou o poste de iluminação. Quando estava assim, a sua idéia fixa era desacatar. Mas tanto era desacatar o ato de provocar um amigo ou desconhecido, como virar uma garrafa inteira de Madeira R ou fazer aquilo no poste, à vista de toda a gente. “Desacatei! Hep!”

No Ventania apareceu o vice-cônsul, maior do que ele, mais corado do que ele, elegante pra cachorro: “Vil burocrata, espancá-lo-ei na via pública!” Mas espancou o quê, foram mas foi beber numa pensão da Lapa, espavorindo as mulheres, afugentando os michês, hep!, enquanto a pianista feia e velha, única pessoa sem medo, mantinha o prestígio da casa atacando com bravura o “Zaraza”. Depois o Lamas até às primeiras claridades da manhã. Só então, porque como a Tristão e Isolda o sol é odioso aos notívagos desta espécie, os dois deixaram o tradicional café do largo do Machado em busca de abrigo. (more…)

João Gilberto Noll: ‘A máquina de ser’

Saturday, September 30th, 2006

O escritor gaúcho João Gilberto Noll chega este ano à categoria dos sessentões tendo uma obra vasta e coerente para mostrar. Nela predominam os romances: “A fúria do corpo”, “Bandoleiros”, “Harmada”, “Berkeley em Bellagio” e outros. Essa predileção pelas narrativas longas – ou relativamente longas, pois a verborragia aqui não tem lugar – sempre me pareceu intrigante. Meu livro preferido de Noll continua sendo o primeiro, de contos, “O cego e a dançarina”, lançado em 1980. O estilo marcante do autor, com sua indeterminação crônica instalada no coração mesmo das frases, das palavras, torna aflitivamente fugidios, estranhos, esgarçados, personagens e cenários. O que me parece bem menos adequado à narrativa longa que à curta, que pode prescindir com mais facilidade de uma arquitetura precisa, de um enredo calculado – ainda que calculado para confundir. Por tudo isso é muito boa a notícia de que, após publicar o volume de minicontos “Mínimos múltiplos comuns” (Francis, 2003), Noll já está de volta ao gênero, e dessa vez em tamanho mais suculento, com as 24 histórias de “A máquina de ser” (Nova Fronteira, 144 páginas, R$ 22), que chega às livrarias no próximo fim de semana. Abaixo, um conto inteiro, um dos melhores do livro, chamado “Nado livre”:

Vivi tanto aquele dia que de mim escorreu sangue ao deitar. Tinha tomado champanhe, uma garrafa inteira de vodca, me arranhara fundo pelos espinhos de umas plantas que poderiam ser de um jardim, praça, parque, sei lá! E, de repente, estava sem bebida em casa. Então, feito fosse uma garrafa de vinho, acabei bebendo em pesadelo o que sobrara de mim própria em meio a cólicas —, sim, desidratando-me inteira, a cabeça ruiva sobre os travesseiros, os mesmos sobre os quais eu beijara pouco antes uns lábios carnudos que se abriram passando uns goles de champanhe para os meus, ávidos de sal. Meu filho, um homem adolescente, me acordou de manhã pedindo que eu fizesse o lanche que ele já estava atrasado pro colégio. Hein?, quase supliquei uma trégua, assim, com essa indagação vaguíssima. Ele insistiu que eu fizesse o café porque a aula de inglês começava às oito. Então me levantei depois de me arrastar pelos lençóis, como se fosse um soldado pelos charcos de uma terra inimiga, até que o meu filho homem no raiar da adolescência me pegou pelos braços e foi me guiando até o banheiro para a minha higiene matinal. Fechei a porta atrás de mim. Ainda me sentia tonta pelo porre da noite. Fui até o vaso me agarrando pelas coisas para não cair. Como doar meus próximos minutos para meu rebento? Sentei, o xixi demorou a sair. Fiquei ali, esperando, até que, ao sair de mim num amarelo quente, não parou mais… Meu filho já batia na porta, pedindo que eu viesse logo que já eram sete e meia. Ai!, gemi bem alto, mas não tanto o ponto de apagar o som do meu xixi. Vem, mãe!, ele clamava. Eu bocejava trazendo à superfície não somente o cansaço inerente a uma brutal ressaca, mas também a expressão de um tédio quase sempre partícipe no ato do bocejo. Eu é que tive vontade de clamar para ele. Clamar por um armistício válido para aquela manhã apenas… Mas eu já sabia, ele era a tradução de um ego inflamado de adolescente. Se eu o riscasse do meu dia, jamais seria perdoada. E eu precisava ser perdoada? Não, não, eu permaneceria trancada naquele banheiro pelo dia todo, deitada no chão frio. Ele tinha o banheiro da área de serviço. Que se virasse pra comer. Que fosse pro colégio agora e lanchasse lá. Ainda ouvia o som do meu xixi para encontrar assim um equilíbrio interno, qualquer coisa por aí, quando de um golpe a porta do banheiro é arrombada, trazendo junto o corpo de um homem enorme com certeza o arrombador que acaba caindo próximo aos meus pés junto com lascas da porta. Quem era o homem? E eu saberia dizer assim de supetão? Seria meu filho já tão grande assim? Não, decididamente, não era ele não. (more…)

Cormac McCarthy: ‘Onde os velhos não têm vez’

Thursday, September 21st, 2006

É a primeira vez que a seção Primeira Mão aparece aqui dois dias seguidos, mas a ocasião justifica o exagero. No pacote de lançamento do selo Alfaguara no Brasil (veja a nota de ontem sobre o livro de Mario Vargas Llosa), chama atenção outro escritor de primeira grandeza, este, porém, de obra pouco conhecida entre nós: o americano Cormac McCarthy, 73 anos. Em maio deste ano McCarthy teve o livro que costuma ser considerado sua obra-prima, “Meridiano sangrento”, incluído por um júri do “New York Times” entre os mais importantes da ficção americana nos últimos 25 anos (nota da época aqui).

“Meridiano sangrento” foi lançado nos EUA em 1985 e saiu aqui pela Nova Fronteira em 1991, mas faz tempo que virou raridade. Depois disso a Companhia das Letras publicou a chamada Trilogia da Fronteira de McCarthy: “Todos os belos cavalos” (1993), “A travessia” (1999) e “Cidades da planície” (2001). Ficou nisso. O que torna mais bem-vinda esta edição de “Onde os velhos não têm vez” (Alfaguara, tradução de Adriana Lisboa, 252 páginas, R$ 38,90), um western moderno – ambientado nos anos 80 – e ultraviolento que a prosa tensa e seca de McCarthy ajuda a tornar mais do que um jogo de gato-e-rato convencional.

O livro se sustenta em três personagens: Llwelyn Moss, um veterano do Vietnã que, caçando num deserto do Texas, esbarra por acidente numa bolada de dois milhões de dólares que era transportada por traficantes de drogas – já convenientemente mortos quando ele os encontra – e decide ficar com o dinheiro; um xerife que investiga o caso; e um assassino profissional desses de gelar o sangue, Anton Chigurh, que os donos do dinheiro contratam para reavê-lo. O argumento poderia ser o de um filme hollywoodiano besta. Como se trata de McCarthy, que sabe como poucos dar ressonância artística e verdade humana ao horror, é um alívio que o livro, lançado ano passado no mercado americano, esteja sendo adaptado para o cinema pelos ótimos irmãos Coen.

No trecho abaixo, Chigurh – um sujeito que mata por pouco, por nada, mas gosta de dar às suas vítimas uma chance no cara-ou-coroa – conversa com o dono de uma lojinha de conveniência num posto de beira de estrada.

Chigurh estendeu um dólar sobre o balcão. O homem abriu a caixa registradora e empilhou o troco diante dele do modo como um carteador de cassino coloca as fichas. Chigurh não tinha tirado os olhos dele. O homem desviou o olhar. Tossiu. Chigurh abriu o pacote plástico de castanhas-de-caju com os dentes e despejou um terço do pacote na palma da mão e começou a comer.

Mais alguma coisa? o homem disse.

Não sei. Será?

Tem algo errado?

Com o quê?

Com alguma coisa.

É isso o que você está me perguntando? Se tem algo errado com alguma coisa?

O homem se virou e colocou o punho fechado sobre a boca e tossiu outra vez. Olhou para Chigurh e ele desviou o olhar. Olhou pela janela para a frente da loja. As bombas de gasolina e o carro parado lá. Chigurh comeu mais um punhadinho de castanhas-de-caju.

Mais alguma coisa?

Você já me perguntou isso.

Bem é que eu preciso fechar.

Fechar.

Sim senhor.

A que horas você fecha?

Agora. Fechamos agora.

Agora não é um horário. A que horas você fecha?

Normalmente ao escurecer. Quando escurece.

Chigurh ficou ali mastigando devagar. Você não sabe o que está dizendo, não é mesmo? (more…)

Mario Vargas Llosa: ‘Travessuras da menina má’

Wednesday, September 20th, 2006

O romance “Travessuras da menina má” (Alfaguara, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, 302 páginas, R$ 39,90), de Mario Vargas Llosa, saiu há cinco meses na Espanha e marca um momento especial na carreira do escritor peruano de 70 anos: sua obra completa começou a ser editada na mesma época e os rumores de que o Nobel de Literatura – que será anunciado mês que vem – tem lhe piscado um olho andam fortes como nunca desde que ele esteve este ano em Estocolmo, terra do prêmio, para participar de um monumental congresso de especialistas em sua obra.

Assumido pelo próprio Vargas Llosa como sua primeira “história de amor”, o livro é divertido a seu modo ligeiro, distante da grandiosidade de, por exemplo, “Conversa na Catedral”. A paixão do protagonista Ricardo pela menina má do título se espalha no tempo – quatro décadas – e no espaço, passando por muitas das cidades em que o autor viveu, para esboçar um painel da segunda metade do século XX: Lima nos anos dourados, Paris no tempo do radicalismo estudantil, Londres quando ela era swinging, Madri na redemocratização. Em cada cidade o pobre Ricardo reencontra sua fria e impiedosa amada num novo papel, com uma nova identidade. Soa meio esquemático – e é. O trecho abaixo dá uma pista de como o talento de Vargas Llosa para contar histórias consegue levar o projeto a bom termo mesmo assim.

Para encerrar, registre-se que no lançamento de “Travessuras da menina má” dá-se um fenômeno raríssimo: a editora é mais notícia que a obra. Estrela de um pacote que inclui cinco outros títulos de uma só vez, o livro marca a estréia brasileira do selo espanhol Alfaguara, nome de prestígio que o grupo editorial Prisa-Santillana – atuando no Brasil desde o ano passado, quando adquiriu 75% do capital da editora carioca Objetiva – reserva para seus autores de qualidade literária mais estabelecida.

Dos outros cinco títulos do pacote inicial da Alfaguara brasileira destacam-se, pelo ineditismo, um Truman Capote, um Cormac McCarthy e um Will Self – mas destes deixarei para falar depois, que a mesa é farta demais para ser atacada de uma vez.

Com a palavra, Mario Vargas Llosa:

Naquele verão extraordinário, nas festas de Miraflores todo mundo parou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terremoto que fazia todos os casais infantis, adolescentes e maduros se sacudirem, balançando, pulando e fazendo firulas nas festas do bairro. E certamente acontecia o mesmo fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Breña, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, o centro de Lima, o Rímac e o Porvenir, onde nós, miraflorenses, nunca tínhamos pisado nem pensávamos pisar jamais.

E assim como havíamos passado das valsinhas e huarachas, das sambas e das polcas para o mambo, também passamos dos patins e patinetes para a bicicleta, e alguns, Tato Monje e Tony Espejo por exemplo, para a moto e até mesmo, um ou dois rapazes, para o automóvel, como o grandalhão do bairro, Luchín, que às vezes roubava o Chevrolet conversível do pai e nos levava para dar uma volta pelo cais, de Terrazas até a quebrada de Armendáriz, a cem por hora.

Mas o fato mais notável daquele verão foi a chegada a Miraflores, diretamente do Chile, seu distante país, de duas irmãs cuja presença marcante e inconfundível jeito de falar, rapidinho, esquecendo as últimas sílabas das palavras e arrematando as frases com uma exclamação aspirada que soava como um “pueh”, deixaram abobalhados todos os miraflorenses que acabavam de trocar as calças curtas pelas compridas. E eu, mais do que qualquer outro.

A mais alta parecia ser mais nova e vice-versa. A mais velha chamava-se Lily e era um pouco mais baixinha que Lucy, que tinha um ano menos. Lily devia estar com 14 ou 15 anos, no máximo, e Lucy, com 13 ou 14. O adjetivo marcante parecia ter sido inventado para elas, mas, sem deixar de sê-lo, Lucy era menos marcante que a irmã, não só porque seu cabelo era menos louro e mais curto e se vestia com menos atrevimento que Lily, mas também porque era mais calada e, na hora de dançar, apesar de também fazer firulas e requebrar a cintura com uma audácia que nenhuma miraflorense se atreveria a assumir, parecia uma garota recatada, inibida e quase insípida em comparação com aquele pião, aquela labareda ao vento, aquele fogo-fátuo que era Lily quando, colocados os discos na vitrola, o mambo explodia e começávamos todos a dançar.

Lily dançava num ritmo saboroso e cheio de graça, sorrindo e cantarolando a letra da canção, erguendo os braços, mostrando os joelhos e balançando a cintura e os ombros de tal maneira que todo o seu corpinho, modelado com tanta malícia e tantas curvas pelas saias e blusas que usava, parecia se encrespar, vibrar e participar do baile dos pés à cabeça. Quem dançava um mambo com ela sempre se saía mal porque, como acompanhá-la sem se atrapalhar no turbilhão endiabrado daquelas pernas e pezinhos saltitantes? Impossível! Você ficava constrangido desde o início, e totalmente consciente de que os olhos de todos os casais estavam concentrados nas façanhas mambeiras de Lily. “Que menina!”, indignava-se a tia Alberta, “dança como uma Tongolele, parece uma rumbeira de filme mexicano”. “Bem, não vamos esquecer que é chilena”, insistia, “e o forte das mulheres desse país não é a virtude”. (more…)

Genichiro Takahashi: ‘Sayonara, Gangsters’

Saturday, September 16th, 2006

Até agora o único livro do japonês Genichiro Takahashi lançado nos Estados Unidos, e também o primeiro a chegar ao Brasil, “Sayonara, Gangsters” (Ediouro, tradução do japonês de Jefferson José Teixeira, 296 páginas, R$ 39,90) é um espanto. Engraçado e perturbador, satírico e ridículo, cínico e bobo, incongruente e brilhante, é tarefa inglória tentar encontrar referências que situem o trabalho de Takahashi, um ex-diretor de filmes pornográficos, em algum tipo de tradição literária ou mesmo antiliterária. O “Japan Times” bem que tentou, falando em “Pynchon com editor” e “Calvino como ele é”. O que talvez tenha sua graça, mas não soa muito condizente com uma história passada num futuro indeterminado em que as pessoas já não têm nomes propriamente ditos, o protagonista é conhecido como Sayonara, Gangsters (sim, o livro leva o nome dele), existe uma sala de aula com um deserto no meio e Virgílio, o poeta, é uma geladeira.

O “Japan Times” não teria como saber disso, mas, aqui do meu canto, o escritor mais aparentado com Takahashi em que consigo pensar é o José Agrippino de Paula de “PanAmérica”: cada um a seu modo, os dois refratam a cultura pop num prisma de loucura. O trecho abaixo dá uma idéia do grau de piração do livro, que foi lançado no Japão em 1982 e chega ao Brasil com a mesma capa e a mesma recomendação de Jonathan Safran Foer, autor de “Tudo se ilumina”, que ajudaram a vendê-lo no careta mercado americano: “Com certeza é um livro engraçado. E belo. E um pouco maluco também. E assustador. E de partir o coração”. É por aí. Se você não gosta de literatura que anarquize sua cabeça, não passe nem perto de “Sayonara, Gangsters”.

Eu e esse cara estávamos de pé no meio do corredor da escola.

De pé diante de mim, o professor de história perguntou:

— Diga-me, garoto, você realmente tem certeza de que o descobridor da América em 1492 foi Babe Ruth?

— Não — eu respondi. — Desculpe meu erro, mestre. Foi Marlon Brando.

— Permaneça de pé por mais uma hora — o professor ordenou.

O professor de história parou diante desse cara.

— Você realmente acha que o livro que a rainha Elizabeth I pediu a Shakespeare para escrever em 1598 era Emmanuelle? — ele indagou.

— Hum — esse cara gemeu e, de braços cruzados por algum tempo, permaneceu pensativo. Então esse cara inesperadamente abriu um pequeno sorriso, indo sussurrar algo ao pé do ouvido do professor.

— Permaneça aí até amanhã de manhã — o professor ordenou.

Esse cara despendeu de pé, no corredor da escola, alguns anos valiosos daquele período difícil da vida.

À semelhança de um judeu que finalmente chega à Terra Prometida, nem um pé-de-cabra o tiraria de sua posição no corredor.

Mesmo no dia de minha formatura, esse cara continuava de pé no corredor, dirigindo-se de modo divertido aos professores e alunos que passavam diante dele: — Vejam, eu sou um corredor.

— Adeus — eu disse ao me despedir dele. (more…)

Antônio Torres: ‘Pelo fundo da agulha’

Saturday, September 9th, 2006

Com o romance “Essa terra” (1976), o escritor baiano Antônio Torres, nascido em 1940, conheceu uma coisa rara: o sucesso em dose dupla, de crítica e de público. Como um criminoso ou a vítima de um trauma fundador – ou um escritor, mistura de tudo isso? –, Torres nunca mais parou de voltar àquela terra, a cidadezinha de Junco. Foi em Junco que, abrindo a trilogia, chegou certo dia um tal de Nelo, filho pródigo de volta da cidade grande, para deslumbrar a numerosa família sertaneja com seus sinais exteriores de sucesso e em seguida se matar enforcado. Totonhim, o irmão que narra e tenta em vão compreender a trágica história, também se manda de lá, e muitos anos depois faz sua própria visita à terra natal, no romance “O cachorro e o lobo” (1997). Uma viagem diferente da de Nelo, rebaixada, esvaziada de toda dimensão heróica: “Agora sou eu o que volta, sem festa nem foguetório”, ele diz. “Pelo tempo em que estou à janela e pela rapidez com que as notícias correm neste lugar, já era para ter sido notado. Mas ninguém apareceu ainda para os rapapés de antigamente. Vai ver o ir e vir se tornou tão banal que já não impressiona a pessoa alguma. São Paulo virou um caminho de roça. O mundo ficou pequeno. Viajar já não é mais uma aventura emocionante.”

Totonhim, como se vê, não se matou. Mas vamos encontrá-lo agora pensando seriamente nessa possilidade no novo romance de Antônio Torres, que encerra a trilogia três décadas depois: em “Pelo fundo da agulha” (Record, 224 páginas, R$ 34,90), que chega às livrarias na semana que vem – no mesmo dia 13 de setembro em que o autor completa 66 anos, o que não será mera coincidência –, o narrador acaba de se aposentar e está sozinho em São Paulo, deprimido, abandonado pela mulher e pelos filhos. O romance se passa apenas na cabeça de Totonhim, que, entre sonho e vigília, revisita sua vida inteira. Soa chato? O trecho abaixo, sobre um surpreendente – e irônico – livro de cabeceira com aura de oráculo, deve ajudar a desmentir essa impressão:

Esta noite o oráculo deste homem é uma mulher, sua santa de cabeceira desde tempos já perdidos nos confins da memória.

Eis a história:

Era uma bela tarde de uma cidade ensolarada chamada Recife, na qual não conhecia vivalma, e onde ele acabava de chegar, e vagava sem rumo atravessando pontes sobre canais, ainda assustado com a cena que assistira na porta do hotel em que estava hospedado: uma briga feia entre dois homens. Só vira o apavorante fim, quando um deles enfiou uma faca na barriga do outro, que se estrebuchou de olhos esbugahados, entalando-se em suas próprias ofensas, a urrar de dor, ai Jesus, enquanto o agressor nem se deu ao trabalho de puxar a enorme lâmina que enterrara no bucho do seu desafeto. O assassino tratou de escafeder-se antes de ser agarrado pela turba que avançava, aos gritos. Com assombro, e estonteado também pela intensa luz da cidade, o transeunte viu no desfecho brutal um aviso de que estava pisando em solo perigoso. Era preciso estar atento a todos os movimentos e tomar todo o cuidado com os esbarrões e até mesmo ao dirigir a palavra a um desconhecido, o que para ele eram todos ali. Pensou: “As pessoas daqui se ofendem à toa. Aqui se mata por qualquer desavença boba.”

Desviou-se do alvoroço a passos rápidos, seguindo no sentido contrário ao da fuga do criminoso, tão sem destino quanto ele. Queria mesmo era correr, correr alucinadamente, mas sabia que isso poderia despertar suspeitas de que teria alguma coisa a ver com o crime. (more…)

Michel Houellebecq: ‘A possibilidade de uma ilha’

Saturday, September 2nd, 2006

O francês Michel Houellebecq, nascido em 1956, está completando meio século de vida, mas continua à vontade no papel de enfant terrible que o transformou, entre um livro escandaloso e outro, no romancista francês contemporâneo mais lido e comentado do mundo – papel, aliás, que andava vago há tempos no país. Admiro Houellebecq desde que li “Partículas elementares” (Sulina, 1999), mas devo acrescentar – embora isso seja tão pouco surpreendente que talvez cumpra direitinho o que o autor planejou desde o início – que se trata de uma admiração cada vez mais contrafeita, cercada de reservas que vão crescendo à medida que sua obra avança: depois do sucesso de “Partículas elementares”, a própria Sulina lançou seu livro de estréia, “Extensão do domínio da luta”. A Record tomou a frente em 2002, com o rumoroso “Plataforma”.

Não está errado dizer que Houellebecq escreve romances de idéias, desde que essas idéias sejam entendidas como negativos dos clichês da esquerda – portanto, de certa forma, ainda clichês. Entre outros alvos mais casuais, “Partículas elementares” compra briga com os hippies e a contracultura da virada dos anos 60/70; “Extensão do domínio da luta”, com a liberação sexual; “Plataforma”, com os muçulmanos. O novo Houellebecq, “A possibilidade de uma ilha” (Record, tradução de André Telles, 480 páginas, R$ 49,90), faz um coquetel de todos esses “inimigos” e aprofunda mais um pouco um traço marcante dos romances anteriores: o clima de fim de linha, o mal-estar profundo com a humanidade, a descrença em qualquer possibilidade de futuro decente. O futuro indecente, aqui, começa quando o protagonista – Daniel, humorista famoso e politicamente incorreto, mais um alter ego de Houellebecq – se junta a uma seita que promete vida eterna a seus fiéis por meio da clonagem. Dá certo: Daniel se perpetua e chega em boa forma à sua versão Daniel25, dois milênios depois. A humanidade como a conhecemos não tem a mesma sorte.

Se esse resumo faz Michel Houellebecq soar ranzinza, reacionário, intratável, é porque ele é tudo isso mesmo. É também um escritor engraçadíssimo, ferozmente perspicaz, e com uma qualidade cada vez mais rara: a ambição insana de dar uma resposta artística ao estado do mundo hoje – o mundo inteiro, e não um pequeno pedaço ou aspecto dele. Hoje. Agora. Houellebecq não bate muito bem. Vale a pena lê-lo.

O espetáculo “PREFERIMOS AS SURUBAS COM PALESTINAS” foi provavelmente o auge da minha carreira – midiaticamente falando. Deixei brevemente os segundos cadernos dos jornais para entrar nas seções “Justiça-Sociedade”. Houve queixas de associações muçulmanas, ameaças de atentado a bomba, enfim, um pouco de ação. Estava assumindo um risco, é verdade, mas um risco calculado: os fundamentalistas islâmicos, surgidos no início dos anos 2000, tinham conhecido mais ou menos o mesmo destino dos punks. A princípio haviam sido desbancados pela chegada de muçulmanos educados, gentis, piedosos, saídos de esferas tabligh; algo equivalente à new wave, para prolongar o paralelo; as garotas nessa época ainda usavam véu, mas bonito, decorado, com babados e transparências, como um acessório erótico de fato. E depois, claro, em seguida, o fenômeno extinguira-se lentamente: as mesquitas construídas a grandes custos viram-se desertas, e as sarracenas novamente oferecidas no mercado sexual, como todo mundo. Tudo estava anunciado, levando-se em conta a sociedade em que se vivia, não podia ser de outra forma; isso não impediu que, no espaço de uma ou duas estações, eu me visse na pele de um herói da liberdade de expressão. Com relação à liberdade, a título pessoal eu era na verdade contra; é divertido constatar que são sempre os adversários da liberdade que se vêem, uma hora ou outra, mais necessitados dela.

Isabelle me assessorava, aconselhando-me com delicadeza.

– O que você precisa – disse de saída – é ter a ralé do seu lado. Com a ralé do seu lado, você será inatacável.

– Eles estão do meu lado – protestei –; eles vão ao meu espetáculo.

– Isso não basta; você precisa adicionar uma camada. O que eles respeitam acima de tudo é o capital. Você tem capital, mas não exibe o bastante. Precisa esbanjar um pouco mais.

A conselho dela, comprei então um Bentley Continental GT, cupê “magnífico e de estirpe”, que, segundo o Auto-Journal, “simbolizava o retorno da Bentley à sua vocação original: propor carros esportivos de alto gabarito”. Um mês depois, eu era capa da Radikal Hip-Hop – enfim, em primeiro plano, meu carro. A maior parte dos rappers comprava Ferraris, alguns Porsches originais; mas um Bentley os desbundava completamente. Os carinhas não tinham nenhuma cultura, sequer em matéria de automóvel. Por exemplo, Keith Richards, como todo músico sério, tinha um Bentley. Eu poderia ter arrematado um Aston Martin, mas era mais caro, e afinal o Bentley era melhor, o capô mais comprido, podia acomodar três putas sem problema. Por 160 mil euros, no fundo, era quase um escândalo; em todo caso, em termos de credibilidade canalha, acho que tive um bom retorno com o investimento. (more…)

Margaret Atwood: ‘O conto da aia’

Saturday, August 26th, 2006

“O conto da aia” (Rocco, tradução de Ana Deiró, 368 páginas, R$ 48), da canadense Margaret Atwood, é uma curiosa fantasia futurista na linha conhecida como “distopia”, ou utopia às avessas, a mesma de “1984”, de George Orwell, e “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. O adjetivo “curiosa” se deve ao fato de que a obra soa, em muitos momentos, como uma resposta direta à paranóia americana pós-11 de setembro, embora tenha sido lançada em 1985. Num país que já foi conhecido como Estados Unidos da América, hoje chamado de Gilead, um golpe militar que teve como pretexto a ação de “fanáticos muçulmanos” aboliu os direitos civis em geral – e os das mulheres ainda mais. Não é a primeira vez que o livro sai no Brasil. Com o título de “A história da aia”, foi publicado pela editora Marco Zero em 1987. Mas é inegável que hoje soa mais atual do que na época.

O romance é narrado pela aia (categoria social inferior, destinada exclusivamente à procriação) chamada Offred, que no trecho abaixo encontra uma colega chamada Ofglen. Infelizmente, ao optar por manter os nomes originais, em vez de adaptá-los como fez a tradução da Marco Zero, a edição mascarou a relação de posse que eles contêm: uma é of Fred, “de Fred”, e a outra, of Glen, “de Glen”.

Uma forma vermelha, uma touca de abas brancas ao redor da cabeça, uma forma como a minha, uma mulher de aparência sem graça e desinteressante, de vermelho, carregando uma cesta, se aproxima da calçada de tijolos vindo em minha direção. Ela me alcança e examinamos uma o rosto da outra, olhando pelos túneis brancos de tecido que nos cercam. Ela é a mulher certa.

– Bendito seja o fruto – diz ela para mim, a expressão de cumprimento considerada correta entre nós.

– Que possa o Senhor abrir – respondo, a resposta também correta. Viramo-nos e caminhamos juntas passando pelas grandes casas, em direção à parte central da cidade. Não temos permissão para ir lá exceto em pares. Isso é supostamente para nossa proteção, embora a idéia seja absurda: já somos bem protegidas. A verdade é que ela é minha espiã, como eu sou a dela. Se alguma de nós duas escapulir da rede por causa de alguma coisa que aconteça em uma de nossas caminhadas diárias, a outra será responsável.

Esta mulher tem sido minha parceira há duas semanas. Não sei o que aconteceu com a outra, a anterior. Um belo dia, ela simplesmente não estava mais lá, e esta aqui estava em seu lugar. Não é o tipo de coisa a respeito de que você faça perguntas, porque as respostas não são, geralmente, respostas que você queira conhecer. De qualquer maneira, não haveria uma resposta.

Esta aqui é um pouco mais roliça do que eu. Seus olhos são castanhos. O nome dela é Ofglen, e isso é mais ou menos tudo que sei a seu respeito. Ela caminha com modéstia e gravidade afetadas, de cabeça baixa, as mãos enluvadas de vermelho entrelaçadas na frente, com pequenos passos curtos como um porco treinado andando sobre as patas traseiras. Durante essas caminhadas ela nunca disse nada que não fosse estritamente ortodoxo, no entanto, nem eu. Pode ser uma verdadeira crente, uma Aia em mais do que apenas o título. Não posso correr o risco. (more…)

Roberto Bolaño: ‘Os detetives selvagens’

Saturday, August 19th, 2006

Ainda não terminei de ler “Os detetives selvagens”, do chileno Roberto Bolaño (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 624 páginas, R$ 59,50), mas o humor selvagem do que li dá e sobra – sobra muito – para recomendá-lo aqui no Primeira mão. O estranho romanção desse autor estranho, que morreu há três anos na Catalunha, onde viveu a metade de seus cinqüenta anos trabalhando em empregos modestos, é uma (falsa?) história de detetive radicalmente (anti?) literária: os detetives são poetas, a mulher desaparecida que eles procuram também é, e todas as conversas giram em torno do assunto, um tanto absurdamente, como se nada mais no mundo tivesse importância. E tem?

“Os detetives selvagens” foi um dos muitos livros que Bolaño escreveu de forma caudalosa depois de ser “descoberto” tardiamente, aos 40 anos, com “A literatura nazista na América do Sul”. Lançado em 1999, o romance que sai agora no Brasil ganhou o prêmio Rómulo Gallegos, o mais importante da língua espanhola. Mais do que isso, foi saudado por muita gente boa – como Enrique Vila-Matas em artigo publicado no “Mais!” há dois meses – como a obra que finalmente tirou a literatura latino-americana do beco sem saída em que o boom do realismo mágico a metera, abrindo caminho para uma nova geração de escritores. É cedo para dizer o que acho de juízo tão grandiloqüente. Mas que o riso feroz – e desesperado – que ecoa neste livro tem o maior jeito de novidade, isso não dá para negar.

Acordei em casa de Catalina O’Hara. Enquanto tomava o café da manhã, bem cedinho (María não estava, o resto da casa dormia), com Catalina e seu filhinho Davy, que ela precisava levar para o berçário, lembrei-me de que na noite anterior, quando só restávamos uns poucos, Ernesto San Epifanio dissera que existia literatura heterossexual, homossexual e bissexual. Os romances, geralmente, eram heterossexuais, já a poesia era absolutamente homossexual, os contos, deduzo, eram bissexuais, mas isso ele não disse.

Dentro do imenso oceano da poesia, distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz , bicha. Borges era bâmbi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Darío era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma das bichas-loucas.

– Na nossa língua, é claro – esclareceu –, no vasto mundo o paradigma continua sendo Verlaine, o Generoso.

Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podiam ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. De fato, a poesia mexicana carecia de poetas bichonas, embora algum otimista pudesse pensar que aí se enquadravam López Velarde ou Efraín Huerta. Bichas, em compensação, abundavam, do maldoso (mas por um segundo escutei mafioso) Díaz Mirón até o conspícuo Homero Aridjis. Deveríamos remontar a Amado Nervo (vaias) para encontrar um poeta de verdade, quer dizer, um poeta bichona, e não um bâmbi como o agora famoso e reivindicado potosino Manuel José Othón, pesadão como ele só. E falando de poetas pesados: borboleta era Manuel Acuña e ninfo dos bosques da Grécia, José Joaquín Pesado, perenes cafetões de certa lírica mexicana. (more…)

Witold Gombrowicz: ‘Ferdydurke’

Saturday, August 5th, 2006

“Comece pelo título. Que significa… nada. Não há no romance nenhum personagem chamado Ferdydurke. E isso é apenas um aperitivo da insolência que virá depois.” Assim começa o prefácio – reproduzido na edição brasileira – que a ensaísta americana Susan Sontag, fã de Witold Gombrowicz (1904-1969), escreveu para a primeira edição americana de “Ferdydurke” a ter tradução direta do polonês: antes, vergonhosamente, o francês servira de intermediário. A correção da falha histórica se deu outro dia mesmo, em 2000. E o romance do autor polonês (mais tarde exilado por 24 anos na Argentina) saíra em seu país-natal em 1937. Seis décadas de atraso na metrópole fazem parecer menos grave – ou no mínimo mais compreensível – que só agora essa obra-prima de iconoclastia, anarquismo e nonsense, narrada por um adulto que se vê arrastado de volta à adolescência por um professor, seja lançada aqui na periferia (Companhia das Letras, tradução de Tomasz Barcinski, 352 páginas, R$ 49). Os leitores do mineiro Campos de Carvalho, aquele que matou seu professor de lógica (leia mais aqui), não devem se surpreender com o estilo de Gombrowicz. Em compensação, ficarão felizes de lhe descobrir esse brilhante precursor.

O príncipe dos mais gloriosos sintetistas de todos os tempos era, sem dúvida, o professor doutor de Sintetismo da Universidade de Leyden, o Sintetista Superior Filidor, proveniente da região meridional de Annam. Ele operava de acordo com o espírito patético da Síntese Superior, principalmente por meio da adição + infinito e, em casos extremos, através da multiplicação + infinito. Era um homem baixo, um tanto gordo, com barba desalinhada e rosto de profeta de óculos. Mas, de acordo com a ordem natural das coisas e seguindo o princípio newtoniano de ação e reação, um fenômeno espiritual de tal magnitude não poderia deixar de provocar a aparição de um contra-fenômeno, na pessoa de outro renomado analista, nascido em Colombo e que, tendo recebido o doutorado e a cátedra de Análise Superior na Universidade de Colúmbia, galgou rapidamente os mais altos degraus da carreira acadêmica. Era um homem seco e miúdo, com o rosto barbeado como um cético de óculos, cuja única missão interior era perseguir e derrotar o afamado Filidor.

Trabalhava analiticamente e sua especialidade consistia em decompor pessoas em partes através de cálculos matemáticos, freqüentemente dando piparotes no nariz delas. E assim, com a ajuda do piparote, o nariz adquiria vida própria, mexendo-se espontaneamente para todos lados, para grande espanto de seu proprietário. O Analista aplicava esse método com freqüência dentro dos bondes, principalmente quando se sentia entediado. Seguindo sua mais profunda vocação, lançou-se em perseguição a Filidor, chegando a receber, numa pequenina cidade da Espanha, o título de Anti-Filidor, o que o encheu de orgulho. Filidor – tendo-se inteirado de que aquele o perseguia – também se lançou em sua perseguição e, durante muito tempo, ambos os sábios perseguiram-se mutuamente sem nenhum resultado, já que o orgulho não lhes permitia admitir o fato de não serem apenas perseguidores, mas também perseguidos. (more…)

Philip Roth: ‘Everyman’

Saturday, July 29th, 2006

O Primeira mão de hoje é diferente: traz trecho de um livro ainda não publicado no Brasil. Everyman, o último lançamento do americano Philip Roth (Houghton Mifflin Company, 184 páginas, US$ 16,32 na Amazon.com – a tradução é minha), é simplesmente a novela mais crua que já li sobre envelhecimento e morte. Por suas páginas sopra um vento frio, e sopra tão forte que me afetou o juízo e me fez ceder a este clichê. O título – tirado de um auto medieval sobre a visita da Morte a Everyman – sugere que Roth vai fazer de seu protagonista sem nome o Homem Comum, o cidadão médio. Parece ter sido essa a intenção, mas não é bem o que ocorre. O everyman aqui é por demais americano, urbano, agnóstico, sexualmente atraente e habituado aos confortos da classe média alta – enfim, um personagem de Roth – para se qualificar como homem universal. O fato de seu plano de saúde de primeira qualidade fazer inveja a 99% da população da Terra, porém, não tira pungência da meticulosa descrição dos problemas médicos em fila que vão roubando do personagem, naco por naco, a sua vida. Que essa vida já não fazia muito sentido antes do que Roth chama de “massacre” fica cada vez mais claro à medida que as páginas avançam, o que contribui para deixar aquele vento mais frio ainda. Everyman é um livro estranho. Assimétrico, insatisfatório, inconclusivo, quase que se pode dizer inacabado, parece querer espelhar a própria trajetória humana entre nascimento e morte. E de certa forma consegue.

No trecho abaixo o protagonista, aposentado como diretor de arte de uma grande agência de publicidade, começou a dar aulas de pintura para gente da sua idade a fim de matar o tempo e está às voltas com uma aluna que, sofrendo de dores agudas na coluna vertebral, deixa o ateliê e, a convite dele, vai se deitar em sua cama.

– Você pode continuar deitada aqui se quiser – ele disse para Millicent Kramer depois que ela bebeu um pouco de água.

– Não posso ficar deitada aqui o tempo todo! – ela choramingou. – Simplesmente não posso mais! Eu era tão ágil, tão ativa… Sendo mulher do Gerald, eu tinha que ser. Íamos a todos os lugares. Eu me sentia tão livre. Fomos à China, percorremos a África inteira. Agora eu não posso nem pegar o ônibus para Nova York, a menos que esteja entupida de analgésicos. E eu não sou boa com os analgésicos, eles me deixam completamente amalucada. E mesmo assim, quando eu chego lá, a dor já voltou. Ah, eu lamento tudo isso. Lamento terrivelmente. Todo mundo aqui tem suas provações. Não há nada de especial na minha história e lamento jogar esse peso nas suas costas. Você provavelmente tem sua própria história.

– Uma compressa ajudaria?

– Sabe o que ajudaria? – ela disse. – O som daquela voz que desapareceu. O som do homem excepcional que eu amei. Acho que eu agüentaria tudo isso se ele estivesse aqui. Mas sem ele eu não consigo. Nunca o vi fraquejar uma vez sequer na vida, até que veio o câncer e o esmagou. Não sou o Gerald. Ele concentrava todas as suas forças e encarava, concentrava todo o seu ser e encarava o que precisasse ser feito. Mas eu não consigo. Não consigo mais agüentar a dor. Ela supera tudo. Às vezes parece que não vou suportar nem mais uma hora. Eu digo a mim mesma para ignorar, que não importa tanto. Digo para mim mesma: “Não leve em conta. É um fantasma. É um aborrecimento, nada mais que isso. Não lhe reconheça o poder. Não coopere com ela. Não morda a isca. Não corresponda. Lute. Enfrente na marra. Ou você está no controle ou ela é que está: a escolha é sua!” Eu repito isso para mim mesma um milhão de vezes por dia, como se fosse o Gerald falando, e aí, de repente, a dor fica tão horrível que eu tenho de me deitar no chão no meio do supermercado e todas as palavras perdem o sentido. Ah, eu lamento, de verdade. Detesto lágrimas.

– Todos detestamos – ele respondeu – mas choramos do mesmo jeito. (more…)

Jonathan Safran Foer: ‘Extremamente alto & incrivelmente perto’

Saturday, July 22nd, 2006

Não se pode dizer que o americano Jonathan Safran Foer não seja corajoso. Incensado pela crítica ao estrear no romance em 2002, aos 25 anos, com um relato pouco ortodoxo em torno do Holocausto chamado “Tudo se ilumina” (Rocco, tradução de Paulo Reis e Sérgio Moraes Rego, 368 páginas, R$ 48), Foer – que virá à Flip – construiu seu segundo livro ao redor de mais um grande trauma coletivo. Desta vez, porém, a ferida está bem mais perto de casa, tanto no tempo quanto no espaço – daí se falar em coragem, embora não falte quem fale também em oportunismo. Inevitável. “Extremamente alto & incrivelmente perto” (Rocco, tradução de Daniel Galera, 392 páginas, R$ 47) é conduzido pela narração de um menino brilhante de 9 anos, Oskar, que sofre com a perda de seu pai no ataque terrorista ao World Trade Center. A prosa inventiva de Foer, recheada – e não raro, convenhamos, entulhada – de jogos de linguagem, às vezes parece pesada demais para a criança que a enuncia, mas nem sempre. No fragmento abaixo, Oskar soa absolutamente convincente enquanto ouve as mensagens que seu pai deixou na secretária eletrônica na manhã do atentado.

Uma infinidade de tempo depois, saí da cama e fui para o armário onde guardava o telefone. Não o havia retirado dali desde o pior dos dias. Era simplesmente impossível.

Passo muito tempo pensando naqueles quatro minutos e meio entre eu chegar em casa e o Pai ligar. Stan passou a mão no meu rosto, coisa que ele nunca tinha feito. Peguei o elevador pela última vez. Abri a porta do apartamento, larguei minha mochila e tirei meus sapatos como se tudo estivesse uma maravilha, porque não sabia que na verdade tudo estava horrível, e como poderia saber? Fiz carinho no Buckminster para mostrar que amava ele. Fui ao telefone checar as mensagens e escutei uma depois da outra.

Mensagem um: 8h52 da manhã.
Mensagem dois: 9h12 da manhã.
Mensagem três: 9h31 da manhã.
Mensagem quatro: 9h46 da manhã.
Mensagem cinco: 10h04 da manhã.

Pensei em ligar pra Mãe. Pensei em pegar meu walkie-talkie e entrar em contato com a Vó. Voltei para a primeira mensagem e escutei todas elas de novo. Olhei para o meu relógio. Eram 10h22:21. Pensei em fugir e nunca mais falar com ninguém. Pensei em me esconder debaixo da cama. Pensei em correr até o centro da cidade para ver se havia um jeito de eu mesmo resgatá-lo. E aí o telefone tocou. Olhei para o meu relógio. Eram 10h22:27. (more…)

Felisberto Hernández: ‘O cavalo perdido’

Saturday, July 15th, 2006

Um dos segredos mais bem guardados da literatura latino-americana acaba de ficar menos secreto. Faz sentido que o escritor e pianista uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) tenha sido admirado com ardor por Julio Cortázar e Italo Calvino, dois prosadores finos com quem tem afinidades evidentes. Mesmo o leitor escolado na obra dos autores de “Histórias de cronópios e de famas” e “As cidades invisíveis”, porém, terá motivos de sobra para se surpreender com os contos longos, alguns beirando a extensão de uma novela, reunidos em “O cavalo perdido e outras histórias”, segundo lançamento da coleção Prosa do Observatório (Cosac Naify, seleção, tradução e posfácio de Davi Arrigucci Jr., 232 páginas, R$ 45). Ressalvada a possibilidade de alguma edição nanica que a história não registrou, trata-se do primeiro livro de Felisberto publicado no Brasil.

A notícia merece comemoração porque Felisberto, como disse Calvino, “é um escritor que não se parece com nenhum outro (…), inconfundível ao abrirmos qualquer uma de suas páginas”. No texto que serve de prólogo à edição, Cortázar discorda em parte, descobrindo pontos de contato entre o uruguaio e o cubano José Lezama Lima. Ambos, para ele, “se conectam com as coisas (porque de algum modo tudo é coisa para eles, palavras, ou móveis, ou paixões, ou pensamentos são ao mesmo tempo tangíveis e inefáveis, sonho e vigília) a partir de uma intuição que só pode ser instalada na linguagem por obra da imagem poética (…)”. A observação é iluminadora, mas o argentino deixa claro que as afinidades terminam aí.

O trecho abaixo é tirado do conto-título e resume algumas qualidades de Felisberto, embora caiba a ressalva: não é fácil recortar um pedaço nessa prosa líquida que a formação de pianista do autor sugere chamar de musical. Talvez o adjetivo não seja descabido, mas é na estranheza familiar – ou na familiaridade estranha – das imagens que o narrador cria, mais do que nos ritmos da narrativa, que reside sua força indefinível. Concordo com Cortázar: chamar essa literatura de “fantástica” soa falso. Talvez porque Felisberto tenha a capacidade de fazer com que esquisitices como um lanterninha de teatro que um dia se descobre literalmente iluminado pareçam naturais, como se o mundo fosse assim. O dele é.

Atravessado sobre as teclas, como um trilho sobre dormentes, havia um longo lápis vermelho. Eu não o perdia de vista, pois queria que me comprassem outro igual. Quando Celina o pegava para anotar no livro de música os números que correspondiam aos dedos, o lápis estava desejando que o deixassem escrever. Como Celina não soltava, ele se mexia ansioso entre os dedos que o sujeitavam, e com seu olho único e pontiagudo olhava indeciso e oscilante de um lado para outro. Quando o deixavam aproximar-se do papel, a ponta parecia um focinho que farejava algo, com instinto de lápis, desconhecido para nós, e observava entre as pernas das notas, buscando um lugar branco onde morder. Por fim Celina o soltava e ele, com movimentos rápidos, como um leitãozinho quando mama, se dependurava vorazmente no branco do papel, ia deixando as pequenas pegadas firmes e acentuadas de seu curto casco negro e mexia alegremente o longo rabo vermelho.

Celina me fazia pôr as mãos abertas sobre as teclas e com seus dedos levantava os meus, como se ensinasse uma aranha a mover as patas. Ela se entendia com minhas mãos melhor do que eu mesmo. Quando as fazia andar com lentidão de caranguejos entre pedrinhas brancas e pretas, de pronto as mãos encontravam sons que encantavam tudo o que havia ao redor do abajur, e os objetos ficavam cobertos por uma simpatia nova. (more…)

Olivier Rolin: ‘Tigre de papel’

Monday, July 10th, 2006

O romance “Tigre de papel” (Cosac Naify, tradução de José Bento Ferreira, 286 páginas, preço a definir), que chegará às livrarias no fim deste mês, é o passaporte do escritor e editor francês Olivier Rolin para a Festa Literária Internacional de Parati – onde ele estará dia 11 de agosto, ao lado do peruano Alonso Cueto e do gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, na mesa “Prosa, política e história”. Trata-se de um belo passaporte. Estruturado como uma caudalosa falação de Martin, que foi militante maoísta na Paris de 1968, para a filha de Treize, um correligionário já morto, “Tigre de papel” é o acerto de contas de Rolin, nascido em 1947, com seu próprio passado politicamente ativo naquele tempo e lugar – ambos lendários. É também uma tentativa de traduzir as motivações da geração 68 para a jovem que o escuta e, com intervenções esparsas mas precisas, ajuda a evitar que o relato descambe para o puro saudosismo melancólico. Se este resumo apressado deu a entender que “Tigre de papel” é um romance pesado, denso, cabeçudo – ou seja, “francês” no mau sentido –, esqueça o resumo. Ambicioso, o livro tem uma verborragia atropelada e suja que o situa bem longe da estante de leituras ligeiras, mas é muito divertido. Lançado com grande repercussão na França em 2002 e finalista do prêmio Goncourt (que não ganhou), evita qualquer traço de chatice com lucidez e humor. Como diz Fernando Gabeira na orelha, “o narrador de ‘Tigre de papel’ critica o presente que nos envolve sem deixar de revelar com precisão o desvario dos construtores da História e, com especial humor, as relações com os burocratas chineses”. O trecho abaixo tem um pouco de cada uma dessas qualidades:

O Angelo na época estava em hypokhâgne(1), você explica à filha do Treize, ele era o líder dos secundaristas da Causa. Com sua tropa, ele interrompia os professores com gozações ou imprecações, conforme o estado de espírito, passeavam pelados pelos corredores, escondiam bichos fedorentos nas salas de administração, respondiam com bombas caseiras às observações dos supervisores, organizavam, nos dias de sol, verdadeiros banhos nos tanques do pátio interno, convidavam piranhas para as aulas de filosofia, criaram numa sala de aula uma “prisão do povo” onde pretendiam encarcerar supostos fascistas – em resumo, se divertiam pra valer. Instituíram um concurso de novos coquetéis, com júri presidido pelo Nessim. Era o que se chamava de “revolta anti-autoritária”. E quem são esses caras, Angelo, Nessim?, pergunta a filha do Treize. Você não sabe contar uma história, mistura tudo. Pelo contrário, mocinha, o imbróglio faz parte da história. O Angelo e o Nessim e todos os outros, a gente chega lá. Só falta dar mais algumas voltinhas. Os professores daquela época não estavam acostumados com essas diatribes, alguns deles tiveram ataques cardíacos. Depois com certeza ficaram mais durões. Aperfeiçoamento da espécie. (more…)

Murilo Rubião: ‘A casa do girassol vermelho’

Sunday, July 2nd, 2006

O mineiro Murilo Rubião (1916-1991) é uma espécie de Dorival Caymmi da literatura: em cinqüenta anos de atividade literária, escreveu uma média de um conto por ano e, perfeccionista, nunca parou de reescrevê-los e submetê-los a uma feroz autocrítica que, no fim das contas, o levaria a considerar apenas 33 aptos a figurar em livro (pena que esse rigor não tenha mais seguidores entre nós). Rubião foi “descoberto” pelo grande público tardiamente, nos anos 70, com o best seller “O pirotécnico Zacarias”. Foi nessa época que o li pela primeira vez. Era adolescente e nunca mais esqueci a forte impressão causada por aquele estilo que, embora fantástico, nada tinha a ver com o realismo mágico latino-americano, ao qual era na verdade bem anterior – o autor já estava inteiro em sua primeira coletânea, “O ex-mágico”, de 1947. A comparação feita habitualmente pela crítica é com Kafka, mas também isso explica pouco. A verdade é que Murilo Rubião não se parece com nada. Só lendo o homem para saber o que significa lê-lo, e por isso é tão bem-vinda a volta ao mercado daqueles 33 contos aprovados por ele, relançados pela Companhia das Letras. Esta semana chegam às livrarias “O pirotécnico Zacarias” (120 páginas, R$ 29, posfácio de Jorge Schwartz) e “A casa do girassol vermelho” (104 páginas, R$ 29, posfácio de Sérgio Alcides), ambos prefaciados por Humberto Werneck. O terceiro volume, “O homem do boné cinzento”, está prometido para abril do ano que vem.

O trecho abaixo é o início do conto que dá título a “A casa do girassol vermelho”. Se alguém conhecer um fragmento mais perfeito de Jardim do Éden em nossas letras, não deixe de me avisar. Isso é só o começo da história, convém esclarecer: a ficção de Murilo Rubião nada tem de ingênua, muito menos de feliz. Melhor aproveitar o paraíso enquanto ele dura:

O entusiasmo era contagiante. Febril. Uma alegria física inundava as faces que até a véspera permaneciam ressentidas. O que veio antes e depois ficará para mais tarde. Mas o que importa, se naquela manhã a alegria era desbragada!

Xixiu mal olhou para fora, ficou alucinado com a paisagem. Parecia um monstro. Da janela mesmo gritou para o universo, que se compunha de quatro pessoas, além dele e de minha irmã Belsie:

– Nanico, sujeito safado! Tá namorando, não é, seu animal de rabo?!

Nanico tirou rapidamente a mão dos seios de Belinha e respondeu desajeitado:

– Tou.

Apenas Belinha, que estava gostando do jardim e das mãos do companheiro, não se conformou com a intervenção do Xixiu, irmão dela. No entanto, disfarçou a irritação. Ninguém se irritava naquele dia. Com naturalidade, virou-se para mim, que beijava a um canto a suave Marialice, e propôs:

– Vamos trocar, Surubi, você fica comigo e o besta do seu irmão se ajunta com a hipócrita da minha irmã. (more…)

Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’

Saturday, June 24th, 2006

“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.

Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava.

O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho… E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros. (more…)

Campos de Carvalho: ‘Sou um crápula’

Monday, June 19th, 2006

Atendendo a pedidos, seguem os dois parágrafos iniciais de uma das crônicas sem título de Campos de Carvalho em “Cartas de viagem e outras crônicas” (veja a resenha na nota abaixo). Qualidade à parte, não é um trecho típico do estilo do autor. Este, para quem não conhece, está bem resumido na frase inicial de “A dama no paquete”, do mesmo livro: “A bicicleta é um boi volátil cujo epicentro se situa sob o esfíncter anal do pedalante”. Resolvi destacar o texto abaixo porque o olhar que se poderia chamar de “social”, no sentido mais atual e penetrante que se dê à palavra, chama atenção em quem foi estigmatizado como alienado pela esquerda. Em outro ponto do livro, diz Campos de Carvalho: “Não sou um animal político, para espanto e escândalo de muita gente. Em compensação eu me escandalizo justamente com a sua politização, que é como eles chamam a sua mania de catequizar e sobretudo de se deixar catequizar”.

Sou um crápula. A mulher grávida de muitos meses carregando a enorme trouxa de roupa na cabeça, pobre a mais não poder e com um menino ao lado também equilibrando o seu volume. Chove e no chão escorregadio o menino deixa cair o seu embrulho, a mãe grita desesperada e desfere violenta bofetada no rosto do menino, que cai e começa a chorar. É dia de Natal, a mãe paupérrima e vesga está no último mês de gravidez, a roupa ali na lama põe a perder todo o trabalho de uma semana: eu tomo o partido do menino, grito como um possesso contra a espantada mulher, a senhora não pode bater assim no menino, isso é uma covardia, a mulher depois do espanto responde com a barriga enorme que todo o seu trabalho ficou ali perdido na lama, a grande trouxa ainda equilibrada na cabeça, o menino caído e chorando, eu então minto que vou chamar a polícia, pode chamar a polícia que o senhor quiser, o senhor e a sua polícia eu queria era ver no meu lugar com essa roupa no chão, vida mais desgraçada.

Sou um crápula. O que não disse à mulher digo-o agora de público, bem alto e de maneira que não haja dúvida nem de minha parte nem de ninguém: sou um crápula e de crápula devo ser chamado, que me apontem na rua como um crápula vesgo e obeso, a barriga deste tamanho: lá vai aquele crápula, chuva nenhuma limpará esse tipo imundo, a ele e aos seus sapatos, e aos seus óculos dourados metidos a besta, que não enxergam nem um palmo diante do nariz. Um crápula perfeito.

Mário de Carvalho: ‘Um deus passeando pela brisa da tarde’

Saturday, June 17th, 2006

O português Mário de Carvalho nasceu em 1944, dois anos depois de António Lobo Antunes, e talvez seja correto dizer que ficou meio ofuscado pelo estilo agressivo e flamejante de seu companheiro de geração. Os dois são escritores da linha de frente da literatura portuguesa hoje, mas Carvalho é mais clássico, de prosa mais contida. O livro que costuma ser considerado sua obra-prima, porém, “Um deus passeando pela brisa da tarde” (1994), tem uma legião de fãs ululantes, daqueles que não se incomodariam de se mudar para dentro da obra. No caso, para a fictícia cidade de Tarcisis, na Lusitânia do século 2, na qual o narrador Lúcio Valério Quíncio, magistrado romano, lida com duas ameaças ao mundo como ele o conhece. Uma é externa: a invasão dos mouros. A outra fermenta no próprio coração do povo: o crescimento de uma seita cujos adeptos têm por símbolo um peixe – o Cristianismo. Após uma edição brasileira pouco divulgada da Contraponto, “Um deus…” está sendo relançado esta semana pela Companhia das Letras (320 páginas, R$ 45,00).

Poucos vestígios da razia são hoje aparentes. É difícil acreditar que estas casas foram reconstruídas, após terem sido em grande extensão arrasadas. Quando esta geração morrer não ficará memória das alterações que em dias de desgraça ensanguentaram estas paragens. Restarão talvez anotações em livros que ninguém lerá, até serem, eles próprios, destruídos, pela crueza do tempo e desatenção dos homens, na melhor das hipóteses. Gozemos agora a paz, Mara e eu, e oxalá não se repitam até ao fim das nossas vidas as depredações que tivemos a desdita de presenciar. Ainda hoje olho com desconfiança quem venha do lado do Oceano. Mas será das praias que acorrem todos os perigos?

Outro dia fiquei estarrecido com o que vi. Era uma manhã agradável e fresca e, contra o meu costume, dei comigo a afastar-me e a deambular pela margem do rio. Debruçado sobre uma sebe, um escravozito apanhava amoras para uma sacola. Nem todas iriam parar à minha mesa, decerto. Habitualmente fecho os olhos a estas pequenas transgressões. As silvas dá-as a natureza, não exigem despesas nem cuidados. Procurei apenas manter-me à distância para que a criança não me visse e não ficasse inutilmente embaraçada. Em dado momento o garoto parou, sentou-se, encheu a boca de amoras, puxou de uma cana e começou a desenhar na areia: uma linha oblonga, outra linha oblonga com a mesma origem e que se afastava e curvava para seccionar a primeira. Uma terceira linha a unir o remate das outras duas. Um ponto: o olho do peixe. (more…)

Lúcio Cardoso: ‘Dias perdidos’

Saturday, June 10th, 2006

Se, como disse o poeta W.H. Auden, alguns escritores são injustamente esquecidos mas nenhum é injustamente lembrado, o mineiro Lúcio Cardoso (1913-1968) está no primeiro caso. A crítica, mesmo acometida de alguma miopia e oscilando ao sabor dos modismos acadêmicos, acabou, de modo geral, por lhe reconhecer um lugar original na literatura brasileira do século 20. A falta de apetite do público, porém, não faz justiça às suas qualidades. E Lúcio Cardoso não é propriamente um escritor “difícil”. Sombrio, torturado, doentio, por vezes aterrador, sim – mas desde quando esses adjetivos, apregoados orgulhosamente em edições de terror, afugentam leitores? A boa notícia é que as obras de Lúcio vêm sendo relançadas com método nos últimos anos. Depois de “Crônica da casa assassinada”, “O desconhecido e mãos vazias”, “Inácio, o enfeitiçado e Baltazar”, “Luz no subsolo” e “Maleita”, é a vez de “Dias perdidos” (Civilização Brasileira, 406 páginas, R$ 60,90), lançado em 1943, que chega às livrarias no próximo dia 20. Há muitos anos esse romance triste e algo convencional sobre duas gerações de amor infeliz – entre Clara e Jaques e entre Sílvio e Diana – andava sumido. Visto pela última vez no catálogo da Nova Fronteira, precisava ser caçado em sebos. Não chega perto da grandeza de “Crônica da casa assassinada” (1959), mas isso não é novidade: nenhum livro de Lúcio e poucos de outros autores ousariam tanto. Se o trecho abaixo servir para conquistar leitores para o autor mineiro, convém lembrar que “Crônica…” vem primeiro. Sempre. Depois, vale conferir “Dias perdidos” também.

Quando Áurea lhe entregou aquele pequeno ser que respirava dentro de um amontoado de flanelas, sentiu o coração confranger-se numa súbita piedade.

– Não está passando muito bem – avisou a amiga, justificando as pesadas roupas em que enrolara o pequeno. Durante alguns segundos Clara sondou as pequenas pupilas onde nenhuma emoção se refletia, sentindo um vago receio aflorar-lhe à consciência. Não devia ter abandonado o filho, ainda estava muito pequeno para ser confiado a estranhos. Era verdade que Áurea… Mas uma criatura daquela idade pertence exclusivamente à mãe. Talvez acontecesse alguma coisa grave, para castigo da sua imprudência. E de repente, com aquele frágil ser entre as mãos, percebeu como era fácil perdê-lo, como a sua respiração parecia leve, como era franzino e delicado! Era visível que não chegaria a crescer, que nunca passaria daquilo. E depois? Lembrou-se da sua solidão, das noites que teria de passar sozinha, das janelas que teria de fechar, uma a uma, antes de se recolher ao leito. Então apertou a criança contra o peito, num transporte, exclamando baixinho: “Meu filho, meu filho!” Quis saber como tinham aparecido os primeiros sintomas, se chorava à noite, se Áurea tomara todas as providências. E, aos detalhes da amiga, impacientava-se, achava que ela devia ter feito exatamente o contrário, que nada daquilo teria acontecido se estivesse perto. A outra, tímida, apertava a bolsa entre as mãos, sem saber o que alegar, sentindo que realmente devia ser culpada nalguma coisa. Mas no íntimo admirava-se daquele ardor, ela, que até agora só tinha visto Clara indiferente ao que se relacionava com o filho. (more…)

Philip Roth: ‘O animal agonizante’

Sunday, June 4th, 2006

É uma coincidência que “O animal agonizante” (Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto, 128 páginas, R$ 29), lançado pelo setentão Philip Roth em 2001, saia nos próximos dias no Brasil, poucas semanas depois do lançamento nos EUA de seu novo romance, Everyman. Os dois livros, ambos novelas ou romances curtos (formato que representa uma novidade na carreira do prolífico autor), têm outro parentesco: mergulham de cabeça na consciência da morte. Pode-se encarar Everyman, que comentarei neste espaço em breve, como a seqüência natural – triste mas natural – de “O animal agonizante”. Neste, tão erótico quanto qualquer outro de Roth, o homem velho aproveita o que lhe resta de vida dividindo os lençóis com Consuela Castillo, uma deliciosa aluna de 24 anos que é dona dos seios mais belos que ele já viu, enquanto reflete sobre o fim inevitável:

Você pode imaginar o que é a velhice? É claro que não. Eu não podia. Nunca consegui. Não fazia idéia do que era. Não tinha nem mesmo uma imagem falsa – não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa. Ninguém quer encarar a velhice antes de ser obrigado a encará-la. Como é que tudo vai terminar? Em relação a isso, ser obtuso é de rigueur.

Por motivos óbvios, é impossível imaginar uma etapa de vida posterior àquela em que estamos. Às vezes já chegamos na metade da fase seguinte quando nos damos conta de que estamos nela. Além disso, as primeiras etapas da velhice têm lá suas vantagens. Mesmo assim, as intermediárias são ameaçadoras para muita gente. Mas e a etapa final? Curioso – é a primeira vez na vida que você consegue ficar completamente de fora da situação que você está vivendo. Observar a decadência do próprio corpo de um ponto de vista externo (para quem tem a sorte que eu tive) permite que a gente se sinta, graças à vitalidade que continua a ter, a uma distância razoável dessa decadência – às vezes dá até para sentir-se orgulhosamente independente dela. Sem dúvida, vão aumentando cada vez mais os sinais que nos levam a tirar aquela conclusão desagradável, mas assim mesmo a gente continua de fora. E a fúria dessa objetividade é brutal. (more…)

Roberto Pompeu de Toledo: ‘Leda’

Sunday, May 28th, 2006

LedaO jornalista Roberto Pompeu de Toledo, colunista que há anos toma conta da última página da revista “Veja”, é dono de um dos textos mais literários – no bom sentido – da imprensa brasileira. Era talvez inevitável que acabasse experimentando o romance, como faz agora com “Leda “ (Objetiva, 160 páginas, R$ 27,90). O livro, que conta a estranha relação entre um escritor famoso e seu biógrafo, tem um subtítulo saboroso: “Relato romanesco em 13 capítulos e epílogo, contendo uma versão condensada de ‘A Busca Vã da Imperfeição’”. A seguir, o trecho que abre o romance:

Chapéu… Sim, havia um chapéu, de fino feltro negro, elegante chapéu de proteger da friagem e do sol mas também de impor respeito, e os olhares em volta eram de admiração e reverência, quando não enamorados e suspirosos, ou… Não, não tão elegante, na verdade um chapéu pobre e roto, chapéu-coco à Carlitos, divertido, com que se brincava e ria, pondo e tirando, pondo e tirando, mas… eis que da última vez que pousa na cabeça ele começa a apertar, assim machuca, assim não é bom, tenta-se tirá-lo, e agora ele não sai… tenta-se de novo, puxa-se daqui e dali, experimenta-se um golpe mais forte, um arranco súbito, um tranco… Nada, não sai, grudou como cola, está firme como cal no muro, fixo como o pescoço do outro lado da cabeça, e o pior é que aperta e comprime, não é mais objeto de diversão e de prazeres, é instrumento de flagelo, tanto mais impiedoso quanto, num puxão mais forte, desesperada tentativa de fazê-lo ceder, ouve-se um rangido, como de porta mal azeitada, mas não é porta, é o rangido da pele que começa a rasgar, a pele querendo vir junto, o horror entre todos horroroso de um escalpo, o perigo de um destampamento, do desgarre de um cocoruto mais apegado ao chapéu que ao resto da cabeça, e a ameaça medonha de ficarem os miolos a descoberto. Horror, horror… Acordou. Sobressalto, suor, coração batendo forte. Aos poucos foi voltando a si. Alívio.

Era a primeira noite de Adolfo Lemoleme na Casa dos Quatro Ventos, e sem dúvida o cansaço da viagem, mais a estranheza de dormir num lugar diferente, contribuíram para o sonho mau. Ele olhou em volta, procurando na penumbra certificar-se da posição que ocupava em relação ao espaço pouco familiar do quarto em que se hospedava. Foi quando… De novo o ruído de um rangido de porta – mas desta vez era a porta mesmo, que se movia lentamente. Que está acontecendo comigo? Que está acontecendo neste lugar? A claridade que vinha do corredor era pouca, mas suficiente para discernir um vulto de homem, “Ber…”, balbuciou Lemoleme, mas não teve tempo de completar a palavra. A porta se fechou. (more…)

Mia Couto: ‘O outro pé da sereia’

Sunday, May 21st, 2006

Mia Couto: O outro pé da sereiaO novo romance do premiado escritor moçambicano Mia Couto, “O outro pé da sereia” (Companhia das Letras, 336 páginas, R$ 43), que acaba de sair em Portugal e chega às livrarias daqui no fim desta semana, une dois momentos históricos – 1560 e 2002 – por meio de uma relíquia que atravessa os séculos: uma velha imagem de Nossa Senhora com o pé quebrado. O sincretismo tecido em torno da santa serve de emblema da história de Moçambique. O trecho a seguir foi retirado do terceiro capítulo e joga o leitor em 1560, a bordo da nau portuguesa Nossa Senhora da Ajuda, que zarpou de Goa com destino à África levando a imagem benzida pelo papa e uma missão: converter infiéis:

A vela pincelou de luz a estátua da Santa. Naquele bruxulear, a Virgem parecia animada de vida interior. O padre Antunes certificou-se de que a imagem estava bem apoiada, a salvo dos balanços do mar. Depois, fechou os olhos, deixando-se possuir pelo duplo embalo: da obscuridade e do mar.

Acreditava estar dormindo quando um rosto pálido de mulher lhe inundou os sentidos. Era uma jovem despedindo-se na berma do rio Mandovi. Antunes seguia na canoa a caminho da nau e a moça ia caminhando sobre o lodo, arrastando as vestes pela lama. A roupa foi somando peso, dificultando-lhe a marcha. Até que ela decidiu desenvencilhar-se do vestido e passou a caminhar nua. Ela não apenas caminhava: circulava como se fosse a dona do mundo de lá. Por mais que quisesse, o padre não despegava os olhos do seu corpo.

Você se lembrará assim de mim, disse a desconhecida.

Cubra-se, mulher…

Você se lembrará de mim quando for tragado pelo mar, vaticinou a mulher. (more…)

Um defeito de cor (trecho)

Thursday, May 11th, 2006

Ana Maria Gonçalves

Sentada sob o iroco, a minha avó fazia um tapete enquanto eu e a Taiwo brincávamos ao lado dela. Ouvimos o barulho das galinhas e logo depois o pio triste de um pássaro escondido entre a folhagem da Grande Árvore, e a minha avó disse que aquilo não era bom sinal. Vimos então cinco homens contornando a Grande Sombra e a minha avó disse que eram guerreiros do rei Adandozan, por causa das marcas que tinham nos rostos. Eu falava iorubá e eve, e eles conversavam em um iorubá um pouco diferente do meu, mas entendi que iam levar as galinhas, em nome do rei. A minha avó não se mexeu, não disse que concordava nem que discordava, e eu e a Taiwo não tiramos os olhos do chão. Os guerreiros já estavam de partida quando um deles se interessou pelo tapete da minha avó e reconheceu alguns símbolos de Dan. Ele tirou o tapete das mãos dela e começou a chamá-la de feiticeira, enquanto outro guerreiro apontava a lança para o desenho da cobra que engole o próprio rabo que havia, mais sugerida do que desenhada, na parede acima da entrada da nossa casa. (more…)

Cony inédito: e a Madre Teresa, hein?

Monday, May 8th, 2006

O Adiantado da HoraExcelente notícia: Carlos Heitor Cony, um dos poucos escritores propriamente ditos da Academia Brasileira de Letras, comemora seus 80 anos (completados dia 14 de março) lançando romance novo, o primeiro desde 2003. Chama-se “O adiantado da hora” (Objetiva, R$ 32,90) e quando sair, no próximo dia 18, promete causar algum escândalo. Nada que se compare ao caso das caricaturas de Maomé – o catolicismo é bem mais flexível, afinal. Flexível mas nem tanto: vale lembrar a recente tempestade de protestos que desabou sobre os falos desenhados com terços pela falecida artista plástica Márcia X., e que fez o Centro Cultural Banco do Brasil cancelar a mostra “Erotica”. Acontece que Cony, um ex-seminarista que já decretou, pela boca de um personagem do romance “Informação ao crucificado” (1961), que “Deus acabou”, continua afiado em sua tensão espiritualidade x anticlericalismo. “O adiantado da hora” é uma farsa furiosa, de humor escrachado e absurdo, em que Madre Teresa de Calcutá, beata a caminho da santificação, torna-se personagem de uma tórrida cena de sexo – mas talvez tudo não passe de mentira de um certo Seabra…

O adiantado da hora (trecho)

Ninguém sabe por que nem quando o chamavam de Seabra – nem ele, que por cautela adquirida com o tempo nem mesmo se chamava, deixando isso para os outros.

No Registro Civil, na Inspetoria de Trânsito, na Receita Federal e na Ordem dos Velhos Jornalistas, da qual era sócio fundador e remido, em várias delegacias especializadas ou não, constava o seu nome verdadeiro, Antônio Ferreira de Araújo, sendo que nesta última instituição, para melhor identificação, depois dos nomes oficiais, aparecia o Seabra, entre parênteses, como uma espécie de fórmula química (H2O), para a água; como uma família botânica (Cucumis sativus), para o pepino; ou identificação de um micróbio (Treponema pallidum), para a sífilis.

Seria um mistério em si, nome imposto pelo uso e adotado pelo consenso, não fosse o próprio Seabra um mistério à parte, ninguém tinha certeza de nada quando dele lembravam ou quando procuravam esquecê-lo.

Mas como esquecer o sujeito que garantia ter sido seduzido pela Madre Teresa de Calcutá, em 1935, quando viajava pelo Oriente (onde nunca pôs os pés) e passou a noite num albergue em Bombaim, onde fora recolhido após assombrosa bebedeira. (more…)

 
Pós-Nomínimo

Carla Rodrigues

Guilherme Fiuza

José Paulo Kupfer

Luiz Antonio Ryff

Pedro Doria

Ricardo Calil

Tutty Vasques

Xico Vargas


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